segunda-feira, outubro 31, 2005

A grande nau

Minha vida é uma barca imensa

Saiu do porto
Em dia de névoa
Bem cedo

E foram entrando
Um a um todos os companheiros
Desta errante viagem

Umas vezes o sol brilha
E límpido o horizonte se revela
Matizado da profusão de cores
E todas as palmeiras se vergam obedientes
E todas as ostras se abrem em pérola
E todos os aromas
São ritmos vivos e quentes

Mas outras
Debaixo duma cerração densa e húmida
Tocamos o céu a escorrer
De tinta em cinza
Que nos aperta cada vez mais
Contra o casco duro desta frágil embarcação.

E mais pesado ainda
Quando intrusos irrompem
No espaço seguro do leito

E mais desolada continua
Vogando
Quando a abandonam
Aqueles que a ajudam
na tormenta.
M. Guimarães (2005)

2 comentários:

Maria Manuel disse...

Belo e verdadeiro!

Anónimo disse...

Grande nau, grande tormenta, diz o povo e com razão...O difícil é levá-la a bom porto mas, haja optimismo, chegará lá certamente.