terça-feira, abril 18, 2006

Desperdício

Muito recentemente utilizei três pequenas auto-estradas no Entre-Douro-e-Minho (Braga- Guimarães, Braga- Esposende; Guimarães-Vila Pouca). Não há dúvida de que é muito agradável circular por vias amplas, com boas vistas, sossegadamente, sem ter de enfrentar os cruzamentos fatais, as paragens súbitas, as aborrecidas filas.
Mas depois observei que nos momentos em que circulava nessas vias, e não era fora de horas, o trânsito era mínimo. Foi então que eu pensei, quando é que serão rentabilizados estes investimentos, mesmo considerando as exorbitâncias das portagens a pagar? Para quando o retorno. Penso mesmo, será que os utentes chegarão a pagar a necessária manutenção?
Começo a considerar que estas coisas de auto-estradas a metro são como os velhos palacetes do século XVIII, com ricas cantarias por fora, mas inóspitos e pouco práticos e desconfortáveis para quem lá vivesse. A megalomania portuguesíssima não se esgota mais!
São tão triviais as nossas necessidades e temos um sentido tão pouco prático de encaramos as coisas.
Voltando às auto-estradas, deixo um alerta, antes que nos venham com mais alguma que ligue Alguidares de Baixo a Carcanhões de Cima: melhorem as estradas nacionais, tornem-nas mais eficazes, resolvam e ultrapassem os pontos negros e teremos vias necessárias e usadas!
É ridículo: duas estradas uma ao lado da outra, numa circula a vida real, na outra (auto-estrada) de quando em vez lá vem um automobilista.

quarta-feira, abril 05, 2006

RealPolitik

Não, senhor Primeiro-Ministro, não concordo!
Por um prato de lentilhas não devemos vender os nossos ideais.
Onde está a defesa dos direitos humanos, da democracia? Será que temos de fechar os olhos a tanta coisa?
A visita que sua Excelência fez a Angola, em grande Estado, não será o aceitar da situação? Não será continuar a fazer de conta que o povo angolano vive uma situação de estado de direito?
Quando foi o último acto eleitoral livre em Angola? Que legitimidade têm os seus actuais governantes? Que têm feito eles às riquezas dessa terra, quando o povo continua a morrer de doenças absurdas, por carências tão elementares?
Não estará a dar cobertura a um regime que se tornou dono dum povo, duma terra, para a espoliar egoisticamente?
E a liberdade de expressão dos jornalistas perseguidos? Não significa nada?
No passado, a desculpa foi a guerra; mas agora que os canhões já se calaram faz tempo, tudo parece permanecer.
Sabemos que o pragmatismo na política fala mais alto do que a consciência, mas importa que esta não se cale.
Por mim, dói-me ver um povo que podia ter tudo, ter de estender a mão à caridade internacional, porque os seus governantes pensam primeiro nos seus benefícios.

terça-feira, março 21, 2006

Quando Vier a Primavera



Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
Alberto Caeiro, Poemas Inconjuntos

Vá lá, tente outra vez

Escute!
Não vá depressa,
Sabe?
Para além da prosaica frieza das horas
Há uma nesga de poesia.

Por detrás das palavras planas e lisas
Há a sinuosa aventura do poema

Vá, dispa-se desse rigor formal!
Não se constroem
Paraísos sem a melodia da voz
Feita palavra.
Manuel Guimarães

domingo, março 12, 2006

Encruzilhada


Estava eu na berma da estrada, junto a uma encruzilhada.
E chegou um viajante. Trazia um olhar perscutador e parecia que não acertava com o Norte. Chegou-se a mim e confessou. O rumo tinha sido traçado em tempos idos, com a ajuda de cartilhas elaboradas em laboratórios onde a história se moldava pela sopro inspirado dos Mestres. Mas, agora que os Mestres se esgotaram ou partiram para o reino imenso das brumas, o viajante paladino da vida, estava perdido.
Não havia mais paraísos resguardados por altos muros, nem deste lado dos muros viu ninguém esmagado pelos grilhões.
- Mas para além desta encruzilhada, onde posso encontrar a minha PÁTRIA? Aquela em que somos todos irmãos sob a imensa bandeira da paz e da prosperidade?
Como te compreendo, viajante faminto dos ideais que floreciam em oníricos reinos de abundância e paz.
Mas neste lugar, mesmo no meio desta encruzilhada, ninguém te dará a bússola certa. Apenas te acenam com promessas fáceis, como em campanhas de liquidação de lojas finas. Vás por aqui, ou por ali, o teu destino é sempre ajustado à imensa falibilidade dos prognósticos.
Qualquer que seja a tua escolha, o ardor do sol, a inclemência da chuva, o arrepio do vento, a dificuldade da subida, o peso do carga são um problema teu e de todos os que chegados aqui tenham de escolher um caminho.
- Mas no final, a celebração vai compensar-me de todas estas provações!?...
- É bom saber-te confiante! Mas depois desta encruzilhada, nada mais há do que a certeza de que a tua felicidade será igual à tua desilusão.
Nesse momento chegou um carro colorido, cheio de enfeites circenses, com uma música garrida e cativante. O viajante não me ouviu mais. Partiu atrás do carro que seguiu rodeado duma nuvem de pó.
E eu fiquei a pensar: qual o caminho? No acto da minha escolha serei apenas eu, ou quem escolhe ficou muito atrás, bem por detrás do meu acto quase involuntário da escolha?

M.Guimarães , Pensar o Hoje (2006).

Imagem: www.marciomelo.com/ LuneenLion/Encruzilhada.jpg

quarta-feira, março 08, 2006

Mulher

a ti que ficas em casa e guardas com tua sombra o lar e preparas o pão e passas as tuas mãos ternas sobre as coisas que nos dão conforto.

a ti mulher, que na frenética respiração das máquinas misturas o bater do peito com o ritmo dos teares.

a ti mulher carregada do negrume das repartições em resmas de ofícios, que aguardas com olhar doce, cansado, irritado, o público contribuinte.

a ti mulher, que na competição cega das empresas reclamas a promoção, a chefia que longos milénios te negaram.

a ti mulher de bata branca que em zelos vários fazes saúde, educação.

a ti mulher, na lenta conquista do poder, nos media, na organização da res publica.

a ti mulher que és mãe, avó, esposa, amante, namorada, viúva, freira, companheira, amiga, camarada, prostituta, manequim, teenager, nas tuas múltiplas metamorfoses duma vida intensa.

A todas vós obrigado.

segunda-feira, março 06, 2006

Será uma retoma?


Passou um mês, um longo e frio mês. O mundo girou, as notícias caíram em catadupa, as graças e as desgraças sucederam-se por este mundo pequeno e cada vez mais impróprio para consumo. Mas uma espécie de cansaço, uma ausência total de motivação, acrescida a muito trabalho, fizeram com que este blog adormecesse, numa hibernação total.
Mas, porque a temperatura começa a subir e porque hoje acordei para aqui voltado, decidi retomar o fio das coisas e acrescentar este breve apontamento.
Deixo-vos com este boneco de neve apanhado, lá para as alturas de Montalegre, onde o frio é como o de antigamente.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Indignação

Estou perplexo.
Aqueles que menos respeito têm pelas diferenças, que queimam e matam seguidores doutros credos, massacram inocentes, estilaçam tudo o que representa o estilo e a qualidade de vida que a civilização moderna construiu pelo Mundo, sob a orientação fanática dos seguidores do profeta, vêm agora queixar-se de falta de respeito pelas suas convicções e seus símbolos. Quem foi que associou os seus símbolos à barbárie, não foram eles mesmos?
Se querem ser vistos com outro olhar, porque não começarem a agir doutro modo, em vez de tentarem aterrorizar os povos.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Provocações

2025 (numa qualquer cidade, neste rectângulo à beira-mar plantado).

Saímos à rua e fomos de mão dada eu e a minha companheira. Depois seguimos para aquela alameda cheia de árvores de folhas dum verde baço.
Depois começámos a sentir à nossa volta aqueles olhares estranhos, como se fôssemos seres aberrantes e anacrónicos.
Ainda ouvi cochichar a alguns que nos marcavam com seu olhar reprovador. Depois viravam o rosto para o lado, disfarçando.
Mais adiante, saído dum grupo, um sujeito mais atrevido e, tomado da sua verdade, interpelou-nos, em forma de censura, porque ousávamos desafiar com o nosso comportamento as suas «normais» ligações afectivas.
Sentimo-nos acossados. Naquele espaço, onde o verde ainda resistia à pardacenta cor que revestia a cidade, para baixo e para cima, pares de homens e pares de mulheres gozavam aquele fim de tarde.
Já no topo da alameda ainda ouvi:
- Então, Ana, tens saído com a Ivete?
- Saí, mas estou convencida de que ela anda com a Joana.
Ao mesmo tempo, outro par, o Leonardo e o João combinavam onde iam passar as férias.
Pouco depois, voltámos para casa: E procurei, entre os velhos vídeos,alguma pré-histórica história de amor em que um garboso cavalheiro cortejasse uma bela e atraente dama.
Manuel Guimarães(2006)

terça-feira, janeiro 24, 2006

Day after

Sentado naquela fria sala, via-os todos de cartão em punho. Avançavam cabisbaixos, cada um na sua vez, como que empurrados por uma secreta obrigação. Não espelhavam no rosto nem uma convicção, nem tão pouco a esperança de que através do seu gesto simples e breve fariam o milagre da transmutação das crises.
Depois chegou a noite, fria, emocionalmente, ninguém aguardou à porta do edifício a concludência dos números. Ninguém manifestou a euforia cartártica após o acto eleitoral. Apenas restou assistir em silêncio ao escorrer dos números nas televisões.
Deixam-se os actos canalhas dos que disfarçaram mal o azedume e passamos à fase seguinte.
Agora é tempo de aguardar e esperar.
Assim, daqui a cinco anos estarei por aqui e virei cobrar do presidente agora eleito aquilo que durante semanas nos prometeu: mais emprego, mais progresso, melhor economia, mais solidariedade,MAIOR PORTUGAL para todos.
E para bem de todos nós, que se cumpra o prometido!

quinta-feira, janeiro 12, 2006

Alegre a Presidente


Se dúvidas tinha, elas dissiparam-se bem depressa.Nada de novo é de esperar do velho animal político. Do filho de Boliqueime, também se desenganem os que esperam milagres. Eu, por mim, acredito que o país necessita é duma voz crítica, duma consciência limpa, que não deva favores a ninguém, nem que represente aqueles que querem voltar ao poder por portas travessas.
Estar com Manuel Alegre é ter a convicção de que não somos reféns da partidocracia e de que quem tem a ganhar é a cidadania.
Já estamos em tempo de aprofundar a democracia, dando mais voz àqueles que não se revêem nos múltiplos aparelhos partidários, vocacionados a satisfazerem as suas clientelas.
Libertar o Estado dessa pressão será a condição necessária para chegarmos às verdadeiras políticas que sirvam o país e não exclusivamente os grupos afectos ao poder(que se revezam alternadamente).
Por tudo isso, e porque é importante não deixar cair a esperança, faço questão de votar em Manuel Alegre.

sábado, janeiro 07, 2006

guimarães


É sempre com nostalgia que percorro a minha cidade - Guimarães .
Foi aí que os meus olhos camponeses se afeiçoaram à paisagem urbana. Foi aí que contactei com coisas tão simples como o café, a leitura de livros de BD ( sobretudo do selvagem Far West), a ida ao cinema, ao futebol.

Foi aí que comprei o primeiro fato, me submeti ao exame nacional do antigo 5.º ano - actual nono). Aí trabalhei pela primeira vez como professor (na Escola Martins Sarmento) , aí fiz o meu primeiro depósito bancário. Não foi aí que nasci, mas foi aí que me fiz homem.

Por isso, é sempre com orgulho que calcorreio as suas praças, ruas e becos, e olho extasiado as fachadas medievas das suas casas, sinto o pulsar da urbe e venero o seu passado épico.
E porque nela se mantém a autenticidade, o carácter genuíno de uma cidade com alma, para o qual contribuiu
o respeito que o passado e o património arquitectónico merecem às suas gentes, dedico-lhe toda esta admiração.
Para mim foi mesmo aí que nasceu Portugal.

quinta-feira, janeiro 05, 2006

As novas terminologias linguísticas do ensino básico e secundário

Transcreve-se um excerto duma resposta interessante que um dos consultores (penso) do Ciberdúvidas deu à interpelação feita por um docente:

«Gostaria, antes de continuar, de tecer algumas considerações sobre a nova terminologia (TLEBS), ou melhor, sobre a ansiedade que a sua implementação está a causar. Sem escamotear a necessidade – que não é de hoje! – de formação específica no âmbito da língua portuguesa, ainda bem que há uma nova terminologia que nos põe, a todos, a questionar a nossa língua e o conhecimento que dela – efe(c)tivamente! – temos. Isto tudo para dizer que a grande maioria dos aspectos focados na TLEBS não é nova. Também é bom dizer que nem todos são pacíficos, ou perfeitos ou, sobretudo, inalteráveis. A problemática entre nome e substantivo, por exemplo, já era evidente quando eu me licenciei, em 1985! Muitas das gramáticas que hoje os nossos alunos (e nós!) compram já falam de nome e não de substantivo. E nós temos andado a “enfiar” na cabeça deles coisas como «sintagma nominal». Alguma vez nos terá passado pela cabeça chamar-lhe «sintagma substantival»? Sinceramente, creio que estamos no bom caminho! Estamos a pensar no assunto e a levá-lo para o grupo disciplinar! Que bom! A segunda a(c)ção de formação promovida pela Universidade de Lisboa sobre este tema, em Outubro e Novembro deste ano, passou das cerca de 20 pessoas que assistiram à primeira, em Janeiro de 2002, para próximo das duas centenas. Estamos finalmente a pensar a nossa língua! E isso só pode ser positivo! Regressando ao «adje(c)tivo substantivado», do meu ponto de vista, trata-se de uma expressão que poderá continuar a ser utilizada, pois ela serve para explicitar, de forma clara, um fenó[ô]meno de formação de palavras: a derivação por conversão (até agora conhecida por derivação imprópria). É a existência desta possibilidade, ou deste fenó[ô]meno, que convém ensinar (ou aprender). Por outro lado, em contexto, a palavra ou é adje(c)tivo ou é nome. Se estiver perante um nome que corresponde à nominalização de um adje(c)tivo, como os seus alunos – depreendo da sua mensagem – estão no final do percurso, não lhes faz mal nenhum, antes pelo contrário, atribuir aos conceitos a designação corre(c)ta e dizer que se trata de um nome, formado por derivação por conversão a partir de um adje(c)tivo. Finalmente a bibliografia. Há, neste momento, de que eu tenha conhecimento, três gramáticas de língua portuguesa que vale a pena ter e consultar: A Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra, com reimpressões disponíveis no mercado; a Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara, cuja 37.ª edição revista e ampliada saiu no Rio de Janeiro em 2001, editora Lucerna; a Gramática da Língua Portuguesa, de Maria Helena Mira Mateus e outras, na sua 5.ª edição, revista e aumentada, publicada pela Editorial Caminho. As três refle(c)tem sobre a língua portuguesa com pormenor e rigor; as mais a(c)tualizadas face à evolução dos conhecimentos lingu[ü]ísticos são as últimas duas, porque foram sujeitas a actualizações já neste milénio. Aquela que mais se aproxima das designações utilizadas na TLEBS é a última. Bom trabalho! Edite Prada ».

Não é que concorde com a globalidade do que diz a autora do texto, devo, no entanto, referir que na minha experiência de professor de Língua Portuguesa já me deparei com um sem número de situações para as quais a gramática tradicional não dá resposta. Não haja ilusões, não é possível considerar o estudo da Língua sem ter por referência os dados que as ciências da linguagem vão acrescentando ( O que seria da Física se os docentes se quedassem por Euclides e não considerassem Newton, já para não falar em Einstein?!).
Mas sejamos realistas, a mera alteração de nomenclaturas (metalinguagens...) não resolve por si os problemas no estudo da Língua (o caso dos famosos «ses»...). Mas também não é uma terminologia que não é tão nova quanto isso que vai alterar a língua. O positivo da situação é o ter-se iniciado um processo. O mal estará em querer terminá-lo por portaria, quando realmente só agora é que começa a ser interessante a discussão.
Fica aqui e, apenas como isso, esta achega.

quinta-feira, dezembro 29, 2005

O Dono do Tempo



Deitado à sombra da olímpica eternidade
Entediado com o rodar
Inquebrável das horas
E porque em baixo
vos excedeis
na corrida contra o Tempo,
Eu, Saturno, ofereço-vos
Uma nova ordem de dias.

Esquecido da velhice eterna
que me cobre os membros
Renasço e faço-me moço
Ao ritmo das estações,
Enquanto vós, na celebração
fugaz como a espuma do vinho
A dissipar-se nas taças,
Aguardais o amanhã
Colorido e breve.

Para vós essa ilusão festiva
Essa ânsia de gozar
A furtiva felicidade
esse travo amargo de sentir o correr
dos dias.

Manuel Guimarães (2005)

quarta-feira, dezembro 28, 2005

Foi há um ano


Depois duma tentativa fracassada de criar um blog no Sapo, acabei por vir ter ao Blogspot, inspirado em alguns blogs de que ouvira falar, muito aligeiradamente. E foi mesmo há um ano que este olhar o mundo «a par e passo» iniciou.
Assim, a reflexão, à gisa de desabafo, a crónica, a crítica, o poema (pela pena tímida do meu outro eu «Manuel Guimarães»), ou então o mergulho na memória da longínqua infância tornam-se texto, neste fundo azul, de tão desinteressado e calmo.
Por aqui foram passando alguns cibernautas, uns quantos tornaram-se frequentadores mais ou menos assíduos e eu sempre na esperança de os ver por cá, lá vou deixando mais um «post».
Entretanto, daqui, fui construindo uma plataforma para viajar para outros blogs amigos, que com a regularidade possível visito e leio.
Quando menos esperava comecei a aceder ao mundo e de todas as partilhas do mundo chegaram sinais de recepção. Entendi, então, que somos cada vez mais concidadãos duma pátria tornada mais próxima e pequena com estas novas ferramentas.
Por tudo que frui desta experiência, creio que vale a pena continuar. Sobretudo, porque vale a pena seguir o curso da vida, vivendo-a e sentindo-a «a par e passo».

sábado, dezembro 24, 2005

Boas Festas


A todos os amigos e a todos quantos cá venham desejo Boas Festas, cheias de saúde, paz e felicidade.
Deixo um abraço a todos vós.

segunda-feira, dezembro 19, 2005

O hipnotizador

De cara vermelha e enfiado na sua longa batina negra o Padre Sousa reuniu cinco rapazes e levou-nos para a sala anexa ao salão de estudo.
Colocou-os encostados à parede dum pálido amarelo. Depois, puxou dum relógio de bolso com as correntes, dum tom de prata, e fê-lo balancear diante dos olhos de um dos moços.
Os outros, em silêncio, com os olhos grandes de espanto e expectantes acompanhavam o pendular compassado do relógio.
Então, com o olhar fixo e penetrante, o padre olhou no fundo dos olhos do pequeno. E disse autoritário e solene:
- Quando contar até três, vais dormir profundamente!
-Um, dois, três!... Dorme! – disse com autoridade.
E o Jorge adormeceu, de pé.
O padre colocou-lhe a mão na nuca, amparou-o e foi-lhe dizendo baixinho:
- Deixa-te cair, estás em casa, aqui é a tua cama…
- E o Jorge foi-se deixando tomar duma imensa sonolência e começou a cair, como se perdesse a consciência e se deixasse adormecer profundamente. Ficou estendido no soalho de pinho, com a respiração pausada de quem dorme um sono profundo.
O padre continuava a questioná-lo se estava confortável. E ele dava um aceno leve. E começava a roncar. O prodigioso clérigo, então, fervia de sucesso.
- Vêem, como ele dorme?! – dizia. - E basta dar dois estalinhos com os dedos e logo acorda! – o seu rosto avermelhava de vaidade.
No pensamento de Nel, no entanto, persistia uma dúvida. Se o padre tivesse de sair e o Jorge não voltasse a acordar? Apoquentava-o o medo de o padre os mandar dizer alguma coisa que não se pudesse saber, debaixo do torpor da hipnose…Ou pior, se ele se esquecesse dos gestos e das palavras mágicas e um deles ficasse para sempre no reino do sono.
Mas nada disso aconteceu. O padre Sousa, deu os estalidos com os dedos e o Jorge acordou, esfregou os olhos e disse apatetado:
- Que foi? onde estou?
Dias depois, porém, a sessão foi diferente. Desta feita a vítima foi o Freitas.
- Acorda! - disse o padre, depois de dar dois estalidos com os dedos. Mas o Freitas não acordava e continuava num roncar perfeito, mesmo de pé.
O Padre tentou mais uma e outra vez. Mas ele continuava naquele sono estranho, como as aves no poleiro. Então o padre, aflito, afastou-se e puxou dum livrinho e releu as fórmulas mágicas. E voltou para junto do estudante, mas agora em vez dos estalidos, foi mesmo um par de estalos que cantaram pelo longo corredor. No salão de estudo todos ouviram o grito do Freitas, que saiu a correr, desaustinado, da sala de arrumos que servia de laboratório ao aprendiz de hipnotizador.
E em todo esse dia na cara bolachinha do Freitas se notaram as marcas dos dedos do severo hipnotizador. A simulação do sono saiu pesada ao Freitas, mas o padre não apanhou mais nenhuma vítima para as suas sessões.
Os rapazes, daí em diante, esgueiravam-se da sua presença e só o toleravam a uma prudente distância, não fosse o seu instinto hipnotizador vir escolher outra vítima.
Manuel Guimarães, Odisseia da Memória(2005)

domingo, dezembro 18, 2005

Os meninos que nós fomos


Olho para a fotografia e não deixo de pensar nos tenros anos da minha infância. Como tão pouco nos fazia felizes! Com um sorriso, uma réstia de imaginação e não havia brincadeira mais gostosa!

Pelo acordar da memória, fico grato ao Museu Etnográfico de Vilarinho das Furnas: o memorial que eterniza um povo que provou aos governantes paternalistas do Estado Novo que estava preparado e sabia usar da democracia.

A Formosura desta fresca serra



Numa breve mas gostosa passagem pelo Gerês, nesta amena tarde de domingo, evoquei Camões, que tinha olhos, alma e arte para amar a natureza.


A fermosura desta fresca serra,
e a sombra dos verdes castanheiros,
o manso caminhar destes ribeiros,
donde toda a tristeza se desterra;

o rouco som do mar, a estranha terra,
o esconder do sol pelos outeiros,
o recolher dos gados derradeiros,
das nuvens pelo ar a branda guerra;

enfim, tudo o que a rara natureza
com tanta variedade nos ofrece,
me está (se não te vejo) magoando.

Sem ti, tudo me enoja e me aborrece;
sem ti, perpetuamente estou passando
nas mores alegrias, mor tristeza.
Luís de Camões, Lírica.

segunda-feira, dezembro 12, 2005

O homem disse que ia abrir o livro

Chegaram todos,
Por trás da mesa apinhada de microfones
O homem sentou-se na cadeira e disse:
- Vou abrir o livro.

Depois fixou o olhar na câmara,
Levou a mão aos óculos,
Compô-los melhor
E começou a olhar para um papel branco
que tremia leve
na mão papuda.

-Vou abrir o livro!
repetiu e voltou a ler em silêncio o imenso
papiro branco
salpicado de sinais
e laivos de saliva.

E do outro lado da mesa,
Faiscante irrompia o cliquar das câmaras,
Dos telemóveis.
E quanto mais a onda mediática
Crescia mais o olhar fundo do homem se perdia
Na imensa brancura da folha
Branca.

Então, desfiou um interminável solilóquio
De caóticas sequências verbais
Que só pareciam coerentes
Porque seguiam a cadeia fónica dum discurso
blablablablablBLABLABLA!blablabah!!

De vez enquanto parava
Na esperança de ter arrancado algum aplauso.
Depois voltava:
- hoje vou abrir o livro.
E repetia um a um os gestos
Numa cadência cíclica.

Por fim,
O discurso fez-se noite
Obscura de razões
perdidas num silogismo qualquer.
E o livro aberto
Não tinha mais do que o acento esdrúxulo
Da catástrofe
Do homem que prometia abrir o livro.
M. Guimarães (2005)