É apenas um número, mas tem um significado para mim: esta é uma maneira de interagir com o mundo. Através desta página vieram pessoas de múltiplos espaços, alguns conhecidos e amigos, muitos desconhecidos, alguns destes se tornaram amigos virtuais. O que mais importou é que por palavras, simples e desinteressadas tentei estar com o mundo, interagir com ele, acompanhá-lo nas suas tristezas, saudar os caminhos novos que se abrem.
Porque tudo isto me parece válido, continuarei, mesmo sabendo que há momentos em que o tempo e a disposição não ajudam.
Por isso saúdo todos aqueles que me visitaram e me visitarão. É para todos vós que mantenho este espaço.
segunda-feira, outubro 31, 2005
A grande nau
Minha vida é uma barca imensa
Saiu do porto
Em dia de névoa
Bem cedo
E foram entrando
Um a um todos os companheiros
Desta errante viagem
Umas vezes o sol brilha
E límpido o horizonte se revela
Matizado da profusão de cores
E todas as palmeiras se vergam obedientes
E todas as ostras se abrem em pérola
E todos os aromas
São ritmos vivos e quentes
Mas outras
Debaixo duma cerração densa e húmida
Tocamos o céu a escorrer
De tinta em cinza
Que nos aperta cada vez mais
Contra o casco duro desta frágil embarcação.
E mais pesado ainda
Quando intrusos irrompem
No espaço seguro do leito
E mais desolada continua
Vogando
Quando a abandonam
Aqueles que a ajudam
na tormenta.
M. Guimarães (2005)
Saiu do porto
Em dia de névoa
Bem cedo
E foram entrando
Um a um todos os companheiros
Desta errante viagem
Umas vezes o sol brilha
E límpido o horizonte se revela
Matizado da profusão de cores
E todas as palmeiras se vergam obedientes
E todas as ostras se abrem em pérola
E todos os aromas
São ritmos vivos e quentes
Mas outras
Debaixo duma cerração densa e húmida
Tocamos o céu a escorrer
De tinta em cinza
Que nos aperta cada vez mais
Contra o casco duro desta frágil embarcação.
E mais pesado ainda
Quando intrusos irrompem
No espaço seguro do leito
E mais desolada continua
Vogando
Quando a abandonam
Aqueles que a ajudam
na tormenta.
M. Guimarães (2005)
quarta-feira, outubro 12, 2005
Verdes anos
- Amanhã esteja pronta às nove.
- Sim, senhor abade.
Depois, voltou para casa e pediu à filha que lesse mais uma vez a lista de todas as coisas que pediam.
-Já temos tudo. Só não sei o que é isso do cionário. Tu não sabes o que é, Mila?
E ela, de olhos grandes, olhou perplexa e pensou o que seria esse cionário.
O dia seguinte chegou. A mala pequena de folha vermelha de pequenas estilizações geométricas estava cheia. E o Nel, vestido com o fatinho escuro do exame da quarta e os sapatos esfolados da brincadeira, ficou à espera da ordem de partida.
Depois subiram a calçada, a mãe, à frente com a mala e um saco grande de pano com as roupas para a cama. O padre Bento já se encontrava junto ao seu Ford Cortina. Acomodados, desceram calçada abaixo, por baixo das ramadas de Carreira, de folhas vermelhas e salpicadas de cal. O carro rolou veloz pela estrada de asfalto e, diante dos olhos do pequeno, acomodado no banco de trás, iam passando pessoas, casas, árvores que a sua memória visual estranhava.
- Vamos por Serafão, tenho de ir lá buscar uns rapazes dum compadre meu. Depois, passamos por Fafe e antes do meio-dia já lá estaremos.
Em Serafão entraram os dois moços. Um mais velhito e outro da idade de Nel. Olharam uns para os outros e foi difícil encontrarem um tema que os aproximasse.
De dentro da taberna, quando o padre Bento estava para arrancar, veio um homem gorducho e rosado que recomendou:
- Esses malandros que não me gastem o dinheiro à toa! Quero fazer deles uns homens!
- Sossega, Monteiro, que os teus moços hão-de sair de lá uns homens, se Deus não os quiser para Ele.
E o carro arrancou ligeiro e seguiu galgando a sinuosa fita negra do asfalto. Pouco depois, já o casario de Fafe se ajuntava no alto sobranceiro ao vale do rio Vizela. Diante da livraria, na praça principal, parou. Venha daí senhora Maria, vamos lá ver se encontramos o tal Dicionário.
Afinal, o cionário era um livro! Um volumoso e pesado livro! O mistério desfez-se, depois, quando se abriu com aquelas letras miúdas alinhadas pela página abaixo e encimadas duma letra maiúscula que o malabarista editor requintou. Vinha ainda com um cheiro forte de tinta da impressão. Tempos mais tarde, com olhos devassos, à socapa, catariam os rapazes nas imensas páginas aquelas palavras interditas e sujas da brejeirice.
Por fim, assomaram à entrada duma grande casa que duas enormes tílias ensombravam. O carro contornou a estátua branca rodeada dum pequeno lago azul, e plantada no meio do largo fronteiro à grande casa amarela, e foi parar diante duma porta enorme com vidros coloridos de igreja.
Um padre de batina negra veio recebê-los e entraram.
Pouco depois, o menino estava com o rosto colado à vidraça, no segundo andar, a ver o carro do padre que regressava a casa com a sua mãe. Enquanto duas gordas lágrimas deslizavam nas faces um soluço forte subia-lhe pela garganta.
À noite, não ouviria mais a voz doce da mãe que o mandava dormir no aconchego da cama de pinho.
Manuel Guimarães, Odisseia da Memória(2005).
- Sim, senhor abade.
Depois, voltou para casa e pediu à filha que lesse mais uma vez a lista de todas as coisas que pediam.
-Já temos tudo. Só não sei o que é isso do cionário. Tu não sabes o que é, Mila?
E ela, de olhos grandes, olhou perplexa e pensou o que seria esse cionário.
O dia seguinte chegou. A mala pequena de folha vermelha de pequenas estilizações geométricas estava cheia. E o Nel, vestido com o fatinho escuro do exame da quarta e os sapatos esfolados da brincadeira, ficou à espera da ordem de partida.
Depois subiram a calçada, a mãe, à frente com a mala e um saco grande de pano com as roupas para a cama. O padre Bento já se encontrava junto ao seu Ford Cortina. Acomodados, desceram calçada abaixo, por baixo das ramadas de Carreira, de folhas vermelhas e salpicadas de cal. O carro rolou veloz pela estrada de asfalto e, diante dos olhos do pequeno, acomodado no banco de trás, iam passando pessoas, casas, árvores que a sua memória visual estranhava.
- Vamos por Serafão, tenho de ir lá buscar uns rapazes dum compadre meu. Depois, passamos por Fafe e antes do meio-dia já lá estaremos.
Em Serafão entraram os dois moços. Um mais velhito e outro da idade de Nel. Olharam uns para os outros e foi difícil encontrarem um tema que os aproximasse.
De dentro da taberna, quando o padre Bento estava para arrancar, veio um homem gorducho e rosado que recomendou:
- Esses malandros que não me gastem o dinheiro à toa! Quero fazer deles uns homens!
- Sossega, Monteiro, que os teus moços hão-de sair de lá uns homens, se Deus não os quiser para Ele.
E o carro arrancou ligeiro e seguiu galgando a sinuosa fita negra do asfalto. Pouco depois, já o casario de Fafe se ajuntava no alto sobranceiro ao vale do rio Vizela. Diante da livraria, na praça principal, parou. Venha daí senhora Maria, vamos lá ver se encontramos o tal Dicionário.
Afinal, o cionário era um livro! Um volumoso e pesado livro! O mistério desfez-se, depois, quando se abriu com aquelas letras miúdas alinhadas pela página abaixo e encimadas duma letra maiúscula que o malabarista editor requintou. Vinha ainda com um cheiro forte de tinta da impressão. Tempos mais tarde, com olhos devassos, à socapa, catariam os rapazes nas imensas páginas aquelas palavras interditas e sujas da brejeirice.
Por fim, assomaram à entrada duma grande casa que duas enormes tílias ensombravam. O carro contornou a estátua branca rodeada dum pequeno lago azul, e plantada no meio do largo fronteiro à grande casa amarela, e foi parar diante duma porta enorme com vidros coloridos de igreja.
Um padre de batina negra veio recebê-los e entraram.
Pouco depois, o menino estava com o rosto colado à vidraça, no segundo andar, a ver o carro do padre que regressava a casa com a sua mãe. Enquanto duas gordas lágrimas deslizavam nas faces um soluço forte subia-lhe pela garganta.
À noite, não ouviria mais a voz doce da mãe que o mandava dormir no aconchego da cama de pinho.
Manuel Guimarães, Odisseia da Memória(2005).
quinta-feira, outubro 06, 2005
Ultimatum Futurista
Como nos fazem falta, hoje, a irreverência e a rebeldia da geração do Orpheu!
ÀS GERAÇÕES PORTUGUESAS DO SÉC. XXI
Acabemos com este maelstrom de chá morno!
Mandem descascar batatas simbólicas a quem disser que não há tempo para a criação!
Transformem em bonecos de palha todos os pessimistas e desiludidos!
Despejem caixotes de lixo à porta dos que sofrem da impotência de criar!
Rejeitem o sentimento de insuficiência da nossa época!
Cultivem o amor do perigo, o hábito da energia e da ousadia!
Virem contra a parede todos os alcoviteiros e invejosos do dinamismo!
Declarem guerra aos rotineiros e aos cultores do hipnotismo!
Livrem-se da choldra provinciana e da safardanagem intelectual!
Defendam a fé da profissão contra atmosferas de tédio ou qualquer resignação!
Façam com que educar não signifique burocratizar!
Sujeitem a operação cirúrgica todos os reumatismos espirituais!
Mandem para a sucata todas as ideias e opiniões fixas!
Mostrem que a geração portuguesa do século XXI dispõe de toda a força criadora e construtiva!Atirem-se independentes prá sublime brutalidade da vida!
Dispensem todas as teorias passadistas!
Criem o espírito de aventura e matem todos os sentimentos passivos!
Desencadeiem uma guerra sem tréguas contra todos os "botas de elástico"!
Coloquem as vossas vidas sob a influência de astros divertidos!
Desafiem e desrespeitem todos os astros sérios deste mundo!
Incendeiem os vossos cérebros com um projecto futurista!
Criem a vossa experiência e sereis os maiores!
Morram todos os derrotismos! Morram! PIM!
J o s é d e A l m a d a N e g r e i r o s
P O E T A F U T U R I S T A E T U D O
segunda-feira, outubro 03, 2005
terça-feira, setembro 27, 2005
Estou contigo

Respiro de alívio. A escolha é possível. Há lógicas que parecem triturar os homens. No entanto há homens que fazem emperrar as engrenagens que ameaçam fazer vergar os homens. Por tudo isso, saúdo a coragem do poeta. E que a voz não lhe falte nos combates urgentes para salvar o que resta desta triste república.
Manuel Alegre, estou contigo.
quarta-feira, setembro 21, 2005
Vindima
www.cm-lamego.pt/ fototecaHoje desci os degraus
da escada interminável
e rasgada no solo xistoso
De lado seguras por muros oblíquos
de pedras e lousas
as videiras agarradas à nesga
de húmus generoso
com as parras avermelhadas do sol
ostentam vaidosas os rácimos negros
Ao longe um rancho de povo
vergado
tosquia as cepas
E aquelas veredas
e aqueles socalcos
fartos de mosto
e de suor
de gestos repetidos e duros
fazem para os homens
um néctar divino.
M. Guimarães (2005)
Aula Aberta
Chegou a hora de dar um sentido mais prático e útil a este «prazer» e «vício» de manter um blog. Assim, começa a construir-se o Aula Aberta, blog de apoio a alunos e professores de Língua Portuguesa da Escola Secundária da Póvoa de Lanhoso. É natural que esta iniciativa vá desviar algum do nosso tempo para essa vertente mais pragmática, por isso a ausência de actualizações neste espaço(o aparipasso) terão a compreensão de todos os que aqui vierem. Garanto-lhes: é por uma boa causa!
domingo, setembro 11, 2005
Palavra necessária
Não sei por onde começar.
Há tanto a dizer
Mas sempre que começo
Pareço tropeçar na frase espúria
Na palavra imprópria
Na ideia cruzada e indecisa.
Por vezes
O silêncio vale mil palavras
Outras
O silêncio é a face
Inaudível da mordaça.
Por isso não resisto a tomar a palavra
Com vontade de gritar.
Mas gritar o quê, para quê
Por quê?
Mas contra a barreira de silêncios
Covardes
A palavra faz-se espada
E rasgará
os mantos negros dessa velha e gasta paz.
Irá como uma centelha incendiar
O negro céu da mente
Que verterá dilacerada
Um sangue vivo
E novo.
Porque é preciso
Limpar o trigo
para a alvura do pão.
M. Guimarães (2005)
Há tanto a dizer
Mas sempre que começo
Pareço tropeçar na frase espúria
Na palavra imprópria
Na ideia cruzada e indecisa.
Por vezes
O silêncio vale mil palavras
Outras
O silêncio é a face
Inaudível da mordaça.
Por isso não resisto a tomar a palavra
Com vontade de gritar.
Mas gritar o quê, para quê
Por quê?
Mas contra a barreira de silêncios
Covardes
A palavra faz-se espada
E rasgará
os mantos negros dessa velha e gasta paz.
Irá como uma centelha incendiar
O negro céu da mente
Que verterá dilacerada
Um sangue vivo
E novo.
Porque é preciso
Limpar o trigo
para a alvura do pão.
M. Guimarães (2005)
segunda-feira, setembro 05, 2005
Esta imagem vale mil palavras
Copiado do Cidadão!
Com o início do ano lectivo já aí, por que não uma reflexão sobre o estado da educação em Portugal? E ocorrem-me agora as pressões que sobre os professores se fazem quando se fala de sucesso escolar. As estatísticas fazem mais do que o estudo. Se os exames obrigam a estudar e chumbam os meninos: fácil! Acabem-se com os exames! Ou ainda melhor, baixe-se o nível de exigência dos exames! Mas que ninguém se lastime se o panorama for este: alunos que depois de percorrerem toda escolaridade até ao 12.ºano não sejam capazes de organizar um texto numa linguagem minimamente correcta e de interpretar com algum rigor a mensagem dum texto de dificuldade média. Muito do esforço dos professores dispersa-se em actividades burocráticas kafkianas em vez de se dirigido para aquilo que do professor se espera: a preparação dos seus alunos. Os alunos, por sua vez, em vez de se prepararem com um estudo aturado e sistemático para uma assimilação correcta e inteligente do saber e adquirirem as competências necessárias à sua progressão, procuram obter resultados imediatos, lançando mão de uma panóplia de mezinhas que enganam as estatísticas mas não alteram as evidências. Pode ser que algum dia, do lado do poder, das escolas (docentes e não docentes), dos alunos e seus encarregados de educação se faça o que há muito se devia fazer: educação. Nos últimos tempos, o treino, o amestramento, no fundo a fraude generalizada têm levado a palma. Mas é preciso acreditar! Temos de acreditar!
sábado, setembro 03, 2005
A propósito do Katrina
Dei hoje uma espreitadela ao blog Abrupto e não deixei de me aperceber de que a isenção de que se arbora o seu autor tem limites. Há algo que nunca põe em causa: a superioridade dos USA em relação a todos os outros povos. E não faltam textos de leitores assíduos do mesmo que aproveitam para espiçarem a Europa dos males que esta exibe face ao paraíso americano.
Opiniões são opiniões, mas factos são factos: foi precisamente num dos estado dos USA que permitiu uma das mais escandalosas chapeladas em actos eleitorais, foi precisamente aí que havia de mostrar-se perante a opinião pública mundial a sobredita «superioridade americana».
No momento, porém, o que importa é dedicar às vítimas da imponderável natureza e da falta de estratégia dos políticos a minha solidariedade.
quinta-feira, setembro 01, 2005
Cromos
A época futebolística começou, mas há já factos dignos de registo (Benfica, Guimarães). Talvez fosse oportuno às respectivas direcções pesquisarem um pouco nos velhinhos cromos alguns craques já retirados que poderão dar uma perninha como armas secretas. Isto se quiserem imitar os treinadores do PS que arranjaram um craque da pós-carreira para tentarem ganhar o campeonato das presidenciais. (podem rir!).
Já agora para se recordaram de alguns dos craques da bola, porque não dar uma espreitadela ao blog http://cromodoscromos.blogspot.com/? Ajuda a reavivar a memória.
Já agora para se recordaram de alguns dos craques da bola, porque não dar uma espreitadela ao blog http://cromodoscromos.blogspot.com/? Ajuda a reavivar a memória.
quarta-feira, agosto 31, 2005
Anúncio
| - Caros companheiros camaradas da longa estrada venho aqui com toda a veemência dizer-vos que a pátria está em perigo que de todos os cantos deste paraíso abandonado espreitam ameaças há a iminência da república ser destruída e vilipendiada. Por isso apresento-me e sacrifico-me por vós depois de ter pairado sobre mim o véu da morte. E o arrazoado prosseguia em tom ronceiro e gasto. Então, uma criança puxou o vestido da mãe e protestou: - mãe, a bolacha tem mofo, já não presta. - Come, filho, é o que há. E na mão mimosa do menino a velha bolacha se esboroou e ficou em nada! M.Guimarães (2005) PS. Porque não nos conformamos com o absentismo de alguns e a insanidade de muitos. |
terça-feira, agosto 30, 2005
Final de Verão
O que dizer
quando se regressa aos espaços
de sempre
viciados de nós
pisados da nossa presença
e sabemos que da ausência
nada de novo brotou do solo exausto
que na penumbra de árvores transidas
de folhas enroladas
a aragem sopra ainda asperamente seca
e tudo se abate numa calmaria entediante.
Enquanto nas entrelinhas dos bizarros boletins
a sede se agiganta
e os pássaros doentes estilhaçam
os céus com gritos febris como pedras
Eu recolhido na sombra de gestos defensivos
aguardo que a amenidade doce da brisa
suavize o ar
tempere o sol ardente
e adoce os figos
hirtos e verdes
e os cachos enloureçam
de doce mosto.
Manuel Guimarães (2005)
quando se regressa aos espaços
de sempre
viciados de nós
pisados da nossa presença
e sabemos que da ausência
nada de novo brotou do solo exausto
que na penumbra de árvores transidas
de folhas enroladas
a aragem sopra ainda asperamente seca
e tudo se abate numa calmaria entediante.
Enquanto nas entrelinhas dos bizarros boletins
a sede se agiganta
e os pássaros doentes estilhaçam
os céus com gritos febris como pedras
Eu recolhido na sombra de gestos defensivos
aguardo que a amenidade doce da brisa
suavize o ar
tempere o sol ardente
e adoce os figos
hirtos e verdes
e os cachos enloureçam
de doce mosto.
Manuel Guimarães (2005)
quarta-feira, agosto 24, 2005
Um pouco de mar

A simplicidade do quadro. De manhã, o areal livre, a água fresca, a paisagem desimpedida. Para gozar o Algarve é preciso acordar cedo e não temer os sinais do tempo. Qualquer ameaça de tempestade é apenas e tão só uma ameaça.
Mas era precisamente quando os elementos se conjugavam que tudo aquilo fazia mais sentido e me relaxava por completo, lá isso era!
domingo, agosto 21, 2005
Dissolvência
Era um mundo compacto
Cheio
O verde revestia o castanho do húmus
As ervas lanceoladas apontavam o ar limpo
Flores lilases
Brancas, amarelas, azuis
Ponteavam o verde.
O musgo aveludado adoçava a aspereza dos granitos.
Hercúleas as formigas arrastavam
Toneladas de sementes
Por córregos intermináveis.
O azul do céu e uma luz limpa e exacta
Iluminava
Nos tons perfeitos as cores da vida
Cortada apenas pelo som estridente
Dum pássaro em voo rasgado.
Mas eis que um turbilhão de chamas
Avança numa surdina medonha
Galopando veredas fora.
Cerca as árvores, envolve-as, devora-as insaciável
E deixa-as como espectros sombrios e tristes.
Por fim,
Fica o cheiro abafado do fumo
As cores mortais
Da paisagem toldada de névoa
Sufocante.
E dentro de mim a dor de sentir
O corpo da terra destroçado
Num mar de chamas.
Manuel Guimarães (2005)
Cheio
O verde revestia o castanho do húmus
As ervas lanceoladas apontavam o ar limpo
Flores lilases
Brancas, amarelas, azuis
Ponteavam o verde.
O musgo aveludado adoçava a aspereza dos granitos.
Hercúleas as formigas arrastavam
Toneladas de sementes
Por córregos intermináveis.
O azul do céu e uma luz limpa e exacta
Iluminava
Nos tons perfeitos as cores da vida
Cortada apenas pelo som estridente
Dum pássaro em voo rasgado.
Mas eis que um turbilhão de chamas
Avança numa surdina medonha
Galopando veredas fora.
Cerca as árvores, envolve-as, devora-as insaciável
E deixa-as como espectros sombrios e tristes.
Por fim,
Fica o cheiro abafado do fumo
As cores mortais
Da paisagem toldada de névoa
Sufocante.
E dentro de mim a dor de sentir
O corpo da terra destroçado
Num mar de chamas.
Manuel Guimarães (2005)
domingo, agosto 14, 2005
O papagaio que queria ser gaivota

Preso ao cadeado e empoleirado no cepo, o velho papagaio mirava ao fundo, para além da avenida, o areal da praia, e o bater incansável das ondas.
- Uah!.. uah! uahhh…- gritava de quando em vez o papagaio azul e amarelo. De vez em quando uma risada trocista:
- Ahh, ahh, ahh...! – o som gutural tinha a conotação de desprezo e raiva.
Mas intrigante era o primeiro som. Donde lhe veio a inspiração? Que animal tão inapto era aquele que em vez das habilidades vocais conformes à sua espécie, apenas aturdia os ares com sons ininteligíveis e pouco consentâneos com a sua ancestral amestração?
Numa tarde, quando a ameaça de mau tempo empurrou para terra as voláteis gaivotas, reparei na coincidência. Os sons angustiados do papagaio eram muito semelhantes aos das gaivotas.
Será que o velho papagaio queria ser gaivota? Abandonar de vez o seu poleiro, libertar-se das correntes que lhe tolhem o voo e prescindir da ração de fruta e da água quente do sol no copo de alumínio?
E se por momentos o papagaio se libertasse e irrompesse no ar às voltas e se elevasse sobre a frescura das águas e mirasse sob o seu azul translúcido as penumbras prateadas dos cardumes?
E se arrastado pela brisa sobrevoasse a multidão estirada ao sol e se deslumbrasse com a paleta interminável das cores dos guarda-sóis?
E se um arrojo de liberdade o levasse para além do horizonte, muito para além daquela varanda ferozmente branca, muito longe da mão do dono que lhe cochichava palavrões e lhe dava fruta e água, então, nesse espaço imenso, sem anilhas, sem cadeado, dono dos mais belos poleiros em árvores floridas pronunciaria os sons ajustados à sua ânsia de ser novamente um pássaro livre.
Mas os dias do papagaio eram entregues àquele cenário monótono, ao rodar das horas, ao revezar-se dos banhistas e das marés, à imensa inveja do voo livre e imprevisível das gaivotas. Por isso, nada mais lhe resta senão imitar o som liberto das aves que dia a dia o desafiam para o grande voo.
Manuel Guimarães, Passar a Sul (2005).
segunda-feira, agosto 08, 2005
La rentrée
Depois de uma boa estirada ao voltante do meu possante saxo, eis-me de novo em casa. Lar doce lar!
E apetecia-me falar de política. Como gostaria de enaltecer algum promissor candidato a PR. Alguma personalidade catalisadora de todas as energias e criasse as sinergias necessárias, personalidade grata que tivesse ideias, carisma, élan, charme (homem, ou mulher - porque nesta fase da evolução do homo portucalensis, as mulheres também são gente!!!). Alguém que nos fizesse esquecer a má economia, os maus políticos, os desastres que todos os dias nos alagam os olhos de água.
Mas, logro dos logros! Dois senadores que já esgotaram todas as suas poções «mágicas» (teriam sido?) apresentam-se agora como os guardiões do templo.
Meus amigos, o templo será roubado! E se não for será distribuído a retalho pela canalha militante que enxameia a nossa vida pública.
Por tudo isso,«mea culpa», votei com Sócrates, mas não me revejo na palhaçada para que caminha a coisa pública. Nem umas merecidas e parcas férias me adoçaram a língua, porque nada pode adoçar a amargura de saber que o círculo de giz em que se fechou a «nossa elite política» abarca um punhado de compadres que vão todos às mesmas festas, e bebem do mesmo «champanhe», importado, como exige a etiqueta.
Por isso, a minha intenção é, a não mudar o cenário, de não contribuir com o meu voto para a beatificação de mortos vivos.
Amen.
E apetecia-me falar de política. Como gostaria de enaltecer algum promissor candidato a PR. Alguma personalidade catalisadora de todas as energias e criasse as sinergias necessárias, personalidade grata que tivesse ideias, carisma, élan, charme (homem, ou mulher - porque nesta fase da evolução do homo portucalensis, as mulheres também são gente!!!). Alguém que nos fizesse esquecer a má economia, os maus políticos, os desastres que todos os dias nos alagam os olhos de água.
Mas, logro dos logros! Dois senadores que já esgotaram todas as suas poções «mágicas» (teriam sido?) apresentam-se agora como os guardiões do templo.
Meus amigos, o templo será roubado! E se não for será distribuído a retalho pela canalha militante que enxameia a nossa vida pública.
Por tudo isso,«mea culpa», votei com Sócrates, mas não me revejo na palhaçada para que caminha a coisa pública. Nem umas merecidas e parcas férias me adoçaram a língua, porque nada pode adoçar a amargura de saber que o círculo de giz em que se fechou a «nossa elite política» abarca um punhado de compadres que vão todos às mesmas festas, e bebem do mesmo «champanhe», importado, como exige a etiqueta.
Por isso, a minha intenção é, a não mudar o cenário, de não contribuir com o meu voto para a beatificação de mortos vivos.
Amen.
sexta-feira, julho 29, 2005
Obrigado
Quero desejar a todos os que me visitaram um excelente verão e férias, se for caso disso.
Não há muitas oportunidades de actualizar este meu espaço, mas vai-se fazendo o que se pode.
Voltarei, um dia destes.
Até breve.
Não há muitas oportunidades de actualizar este meu espaço, mas vai-se fazendo o que se pode.
Voltarei, um dia destes.
Até breve.
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