terça-feira, setembro 27, 2005

Estou contigo



Respiro de alívio. A escolha é possível. Há lógicas que parecem triturar os homens. No entanto há homens que fazem emperrar as engrenagens que ameaçam fazer vergar os homens. Por tudo isso, saúdo a coragem do poeta. E que a voz não lhe falte nos combates urgentes para salvar o que resta desta triste república.

Manuel Alegre, estou contigo.

quarta-feira, setembro 21, 2005

Vindima

www.cm-lamego.pt/ fototeca


Hoje desci os degraus
da escada interminável
e rasgada no solo xistoso

De lado seguras por muros oblíquos
de pedras e lousas
as videiras agarradas à nesga
de húmus generoso
com as parras avermelhadas do sol
ostentam vaidosas os rácimos negros

Ao longe um rancho de povo
vergado
tosquia as cepas

E aquelas veredas
e aqueles socalcos
fartos de mosto
e de suor
de gestos repetidos e duros
fazem para os homens
um néctar divino.
M. Guimarães (2005)

Aula Aberta

Chegou a hora de dar um sentido mais prático e útil a este «prazer» e «vício» de manter um blog. Assim, começa a construir-se o Aula Aberta, blog de apoio a alunos e professores de Língua Portuguesa da Escola Secundária da Póvoa de Lanhoso. É natural que esta iniciativa vá desviar algum do nosso tempo para essa vertente mais pragmática, por isso a ausência de actualizações neste espaço(o aparipasso) terão a compreensão de todos os que aqui vierem. Garanto-lhes: é por uma boa causa!

domingo, setembro 11, 2005

Palavra necessária

Não sei por onde começar.

Há tanto a dizer
Mas sempre que começo
Pareço tropeçar na frase espúria
Na palavra imprópria
Na ideia cruzada e indecisa.


Por vezes
O silêncio vale mil palavras
Outras
O silêncio é a face
Inaudível da mordaça.
Por isso não resisto a tomar a palavra
Com vontade de gritar.
Mas gritar o quê, para quê
Por quê?

Mas contra a barreira de silêncios
Covardes
A palavra faz-se espada
E rasgará
os mantos negros dessa velha e gasta paz.

Irá como uma centelha incendiar
O negro céu da mente
Que verterá dilacerada
Um sangue vivo
E novo.

Porque é preciso
Limpar o trigo
para a alvura do pão.

M. Guimarães (2005)

segunda-feira, setembro 05, 2005

Esta imagem vale mil palavras

Copiado do Cidadão!Com o início do ano lectivo já aí, por que não uma reflexão sobre o estado da educação em Portugal? E ocorrem-me agora as pressões que sobre os professores se fazem quando se fala de sucesso escolar. As estatísticas fazem mais do que o estudo. Se os exames obrigam a estudar e chumbam os meninos: fácil! Acabem-se com os exames! Ou ainda melhor, baixe-se o nível de exigência dos exames! Mas que ninguém se lastime se o panorama for este: alunos que depois de percorrerem toda escolaridade até ao 12.ºano não sejam capazes de organizar um texto numa linguagem minimamente correcta e de interpretar com algum rigor a mensagem dum texto de dificuldade média. Muito do esforço dos professores dispersa-se em actividades burocráticas kafkianas em vez de se dirigido para aquilo que do professor se espera: a preparação dos seus alunos. Os alunos, por sua vez, em vez de se prepararem com um estudo aturado e sistemático para uma assimilação correcta e inteligente do saber e adquirirem as competências necessárias à sua progressão, procuram obter resultados imediatos, lançando mão de uma panóplia de mezinhas que enganam as estatísticas mas não alteram as evidências. Pode ser que algum dia, do lado do poder, das escolas (docentes e não docentes), dos alunos e seus encarregados de educação se faça o que há muito se devia fazer: educação. Nos últimos tempos, o treino, o amestramento, no fundo a fraude generalizada têm levado a palma. Mas é preciso acreditar! Temos de acreditar!

sábado, setembro 03, 2005

A propósito do Katrina

Dei hoje uma espreitadela ao blog Abrupto e não deixei de me aperceber de que a isenção de que se arbora o seu autor tem limites. Há algo que nunca põe em causa: a superioridade dos USA em relação a todos os outros povos. E não faltam textos de leitores assíduos do mesmo que aproveitam para espiçarem a Europa dos males que esta exibe face ao paraíso americano.
Opiniões são opiniões, mas factos são factos: foi precisamente num dos estado dos USA que permitiu uma das mais escandalosas chapeladas em actos eleitorais, foi precisamente aí que havia de mostrar-se perante a opinião pública mundial a sobredita «superioridade americana».
No momento, porém, o que importa é dedicar às vítimas da imponderável natureza e da falta de estratégia dos políticos a minha solidariedade.

quinta-feira, setembro 01, 2005

Cromos

A época futebolística começou, mas há já factos dignos de registo (Benfica, Guimarães). Talvez fosse oportuno às respectivas direcções pesquisarem um pouco nos velhinhos cromos alguns craques já retirados que poderão dar uma perninha como armas secretas. Isto se quiserem imitar os treinadores do PS que arranjaram um craque da pós-carreira para tentarem ganhar o campeonato das presidenciais. (podem rir!).
Já agora para se recordaram de alguns dos craques da bola, porque não dar uma espreitadela ao blog http://cromodoscromos.blogspot.com/? Ajuda a reavivar a memória.

quarta-feira, agosto 31, 2005

Anúncio

- Caros companheiros
camaradas da longa estrada
venho aqui
com toda a veemência dizer-vos
que a pátria está em perigo

que de todos os cantos deste
paraíso abandonado
espreitam ameaças
há a iminência da república
ser destruída
e vilipendiada.

Por isso
apresento-me e sacrifico-me por vós
depois de ter pairado sobre mim
o véu da morte.

E o arrazoado prosseguia
em tom ronceiro e gasto.
Então, uma criança puxou
o vestido da mãe
e protestou:
- mãe, a bolacha tem mofo,
já não presta.

- Come, filho, é o que há.
E na mão mimosa do menino
a velha bolacha se esboroou e ficou
em nada!
M.Guimarães (2005)


PS. Porque não nos conformamos com o absentismo de alguns e a insanidade de muitos.

terça-feira, agosto 30, 2005

Final de Verão

O que dizer
quando se regressa aos espaços
de sempre
viciados de nós
pisados da nossa presença

e sabemos que da ausência
nada de novo brotou do solo exausto
que na penumbra de árvores transidas
de folhas enroladas
a aragem sopra ainda asperamente seca
e tudo se abate numa calmaria entediante.

Enquanto nas entrelinhas dos bizarros boletins
a sede se agiganta
e os pássaros doentes estilhaçam
os céus com gritos febris como pedras

Eu recolhido na sombra de gestos defensivos
aguardo que a amenidade doce da brisa
suavize o ar
tempere o sol ardente
e adoce os figos
hirtos e verdes
e os cachos enloureçam
de doce mosto.
Manuel Guimarães (2005)

quarta-feira, agosto 24, 2005

Um pouco de mar


A simplicidade do quadro. De manhã, o areal livre, a água fresca, a paisagem desimpedida. Para gozar o Algarve é preciso acordar cedo e não temer os sinais do tempo. Qualquer ameaça de tempestade é apenas e tão só uma ameaça.
Mas era precisamente quando os elementos se conjugavam que tudo aquilo fazia mais sentido e me relaxava por completo, lá isso era!

domingo, agosto 21, 2005

Dissolvência

Era um mundo compacto
Cheio
O verde revestia o castanho do húmus
As ervas lanceoladas apontavam o ar limpo
Flores lilases
Brancas, amarelas, azuis
Ponteavam o verde.
O musgo aveludado adoçava a aspereza dos granitos.
Hercúleas as formigas arrastavam
Toneladas de sementes
Por córregos intermináveis.

O azul do céu e uma luz limpa e exacta
Iluminava
Nos tons perfeitos as cores da vida
Cortada apenas pelo som estridente
Dum pássaro em voo rasgado.


Mas eis que um turbilhão de chamas
Avança numa surdina medonha
Galopando veredas fora.
Cerca as árvores, envolve-as, devora-as insaciável
E deixa-as como espectros sombrios e tristes.

Por fim,
Fica o cheiro abafado do fumo
As cores mortais
Da paisagem toldada de névoa
Sufocante.
E dentro de mim a dor de sentir
O corpo da terra destroçado
Num mar de chamas.

Manuel Guimarães (2005)

domingo, agosto 14, 2005

O papagaio que queria ser gaivota



Preso ao cadeado e empoleirado no cepo, o velho papagaio mirava ao fundo, para além da avenida, o areal da praia, e o bater incansável das ondas.
- Uah!.. uah! uahhh…- gritava de quando em vez o papagaio azul e amarelo. De vez em quando uma risada trocista:
- Ahh, ahh, ahh...! – o som gutural tinha a conotação de desprezo e raiva.
Mas intrigante era o primeiro som. Donde lhe veio a inspiração? Que animal tão inapto era aquele que em vez das habilidades vocais conformes à sua espécie, apenas aturdia os ares com sons ininteligíveis e pouco consentâneos com a sua ancestral amestração?
Numa tarde, quando a ameaça de mau tempo empurrou para terra as voláteis gaivotas, reparei na coincidência. Os sons angustiados do papagaio eram muito semelhantes aos das gaivotas.
Será que o velho papagaio queria ser gaivota? Abandonar de vez o seu poleiro, libertar-se das correntes que lhe tolhem o voo e prescindir da ração de fruta e da água quente do sol no copo de alumínio?
E se por momentos o papagaio se libertasse e irrompesse no ar às voltas e se elevasse sobre a frescura das águas e mirasse sob o seu azul translúcido as penumbras prateadas dos cardumes?
E se arrastado pela brisa sobrevoasse a multidão estirada ao sol e se deslumbrasse com a paleta interminável das cores dos guarda-sóis?
E se um arrojo de liberdade o levasse para além do horizonte, muito para além daquela varanda ferozmente branca, muito longe da mão do dono que lhe cochichava palavrões e lhe dava fruta e água, então, nesse espaço imenso, sem anilhas, sem cadeado, dono dos mais belos poleiros em árvores floridas pronunciaria os sons ajustados à sua ânsia de ser novamente um pássaro livre.
Mas os dias do papagaio eram entregues àquele cenário monótono, ao rodar das horas, ao revezar-se dos banhistas e das marés, à imensa inveja do voo livre e imprevisível das gaivotas. Por isso, nada mais lhe resta senão imitar o som liberto das aves que dia a dia o desafiam para o grande voo.
Manuel Guimarães, Passar a Sul (2005).

segunda-feira, agosto 08, 2005

La rentrée

Depois de uma boa estirada ao voltante do meu possante saxo, eis-me de novo em casa. Lar doce lar!
E apetecia-me falar de política. Como gostaria de enaltecer algum promissor candidato a PR. Alguma personalidade catalisadora de todas as energias e criasse as sinergias necessárias, personalidade grata que tivesse ideias, carisma, élan, charme (homem, ou mulher - porque nesta fase da evolução do homo portucalensis, as mulheres também são gente!!!). Alguém que nos fizesse esquecer a má economia, os maus políticos, os desastres que todos os dias nos alagam os olhos de água.
Mas, logro dos logros! Dois senadores que já esgotaram todas as suas poções «mágicas» (teriam sido?) apresentam-se agora como os guardiões do templo.
Meus amigos, o templo será roubado! E se não for será distribuído a retalho pela canalha militante que enxameia a nossa vida pública.
Por tudo isso,«mea culpa», votei com Sócrates, mas não me revejo na palhaçada para que caminha a coisa pública. Nem umas merecidas e parcas férias me adoçaram a língua, porque nada pode adoçar a amargura de saber que o círculo de giz em que se fechou a «nossa elite política» abarca um punhado de compadres que vão todos às mesmas festas, e bebem do mesmo «champanhe», importado, como exige a etiqueta.
Por isso, a minha intenção é, a não mudar o cenário, de não contribuir com o meu voto para a beatificação de mortos vivos.
Amen.

sexta-feira, julho 29, 2005

Obrigado

Quero desejar a todos os que me visitaram um excelente verão e férias, se for caso disso.
Não há muitas oportunidades de actualizar este meu espaço, mas vai-se fazendo o que se pode.
Voltarei, um dia destes.
Até breve.

SOL, SAL, SUL

Abro a persiana
o sol brilha envergonhado
lá ao fundo, rente ao mar
nuvens escondem o azul

Gaivotas irritadiças
esganiçam um canto
melhor um rouquejo

E valerá a pena sair
ver a água espumar-se na areia?

Bom
que caiam
grossas cordas de água
o encontro com o mar
é mais forte do que o tempo

E a praia ficou toda inteira para mim
os outros fugiram
uns pinguiços não me assustam.

Em corrida atiro-me às ondas
que rítmicas batem na areia
e o banho de mar
foi um banho lustral
lavou a imensa poeira
que me atravessava a mente.

Depois veio o sol
e aqueceu-me
e estendi-me recebendo-o
como uma carícia doce.
M.Guimarães,2005.

domingo, julho 24, 2005

Sol, mar, sossego


foto da Net.
Agora que o sol seja generoso, a água tépida, a areia limpa e a rua sossegada q.b. São os votos de quem precisa de recarregar baterias.

Vamos a banhos




A velha camioneta de passageiros chegou. E a mãe e os dois meninos já lá estavam a aguardá-la na paragem.
A mãe trouxe a mala grande e a filha mais velha trouxe mais dois sacos em pano com outras coisas necessárias: roupas de cama e outras utilidades.
- Olhe, senhora. Tem que me chegar a bagagem para o tejadilho da camioneta, na mala já não cabe mais nada.
O cobrador correu a escada e subiu para cima da camioneta. Do chão, a mãe, a custo, levantou a mala e passou-a ao cobrador, que a prendeu com uma rede junto doutras bagagens.
- Mãe e as crianças entraram e sentaram-se os três no assento duplo. O cobrador chegou-se e perguntou:
- Então, é prá Póvoa?
- Sim, prá Póvoa. Se esta geringonça aguentar!…
O motorista voltou-se, levantou o boné em cumprimento e entrou na conversa:
- Pode ficar descansada, santinha. Isto ia até à França, se fosse preciso! Tem um motor alemão de origem…
- Ia, ia…Se não se puser pra aí a ferver como uma panela!... É o costume!
- Desta vez não há azar. Não é, ó Freitas?
O Freitas, cobrador, estava a fazer o troco e acenou apenas com a cabeça.
E lá seguiram viagem. Nas curvas mais fechadas a buzina da camioneta alarmava os passageiros e os pobres campónios que se abeirassem da estrada.
Quando Famalicão já estava à vista, naquela longa recta ladeada de milheirais viçosos, o previsto aconteceu. Não é que a camioneta começa a deitar fumo pela tampa do motor, que ficava mesmo à frente e ao lado do motorista?
- Ó Freitas, despacha-te, traz água, que esta coisa está a ferver!
- Se trouxesse a carne já a assava. – Arengou um passageiro, que se divertia com a cena.
- Ó senhor motorista, não nos queime aqui todos! Olhe pelo menos por este dois meninos que eu aqui tenho. O que havia de dizer a meu homem?!
- Sossegue, que isto não é nada. Daqui a pouco ela fica boa outra vez e vai por esta estrada fora como uma bailarina.
Depois de deitarem lá para dentro dois cântaros de água que o cobrador foi apanhar num tanque que ficava mesmo ao lado da estrada, o que se sabe é que a camioneta retomou a marcha e não voltou a deitar fumo pela tampa!
Uma hora depois, a camioneta estava a passar por baixo do velho aqueduto:
- Já se vê o mar! – disse em sobressalto o menino mas velho. - Lá ao fundo.!- e os olhos do menino brilhavam como a toalha prateada da água do mar que à distância se vislumbrava.
- Deixa ver! – pediu o pequenito.
Ele espreitava mas não via nada.
- Fica quietinho que logo já vais ver o mar.
Mar – palavra mágica que soava como um mistério que prestes se iria revelar para aqueles dois petizes habituados à pequenez do rio e das poças dos lavradores,.
Pouco depois chegaram ao fim do percurso, junto ao escritório da empresa.
- Chegamos, tiazinha.
- Eu não sou sua tia. Olha o atrevido!...
- É um modo de falar. Agora é só descer a bagagem e estão entregues.
- Já não era sem tempo – ripostou a mãe.
- Agora, Zé, esperas aqui com o teu irmão que vou ver se arranjo quem me leve a bagagem.
Passados alguns minutos estava de volta e vinha acompanhada dum sujeito meio curvado, que tossia um catarro velho de tabaco, com um boné e um bigode grisalho e queimado do fumo. Depois pegou na bagagem e perguntou:
- Para onde é, minha senhora?
- Para a Rua Latino Coelho.
-Ó, é perto, está com sorte!
O homem ia à frente e a mãe com os dois filhos pela mão seguia-o de perto.
-Mãe, já me doem as pernas... – queixou-se o mais pequeno.
- É já ali. Só falta um bocadinho.
Por fim, chegaram.
A casa tinha uns azulejos com motivos marinhos: homens do mar que puxavam as redes, mulheres de canastra de peixe à cabeça, Um outro poveiro de gorro na cabeça e o braço curvo e a mão a fazer pala sobre os olhos, mirava a lonjura da linha do horizonte.
A porta estava aberta, a mãe falou com a senhoria e acomodou as coisas nos armários, preparou as camas e depois disse aos meninos:
- Vamos lá ver o mar.
Os meninos davam saltinhos de euforia. Depois, seguiram-na.
Atravessaram uma, outra e mais outra rua.
- Nunca mais é! – resmungou o mais novito.
- É já ali. – tranquilizou-o a mãe.
- Já se ouve! – exclamou o mais velho.
Alcançaram, por fim o areal. E as ondas lambiam as areias, com ímpeto.
- Vamos molhar os pés.
E correram indiferentes aos ralhos apreensivos da mãe.
Depois veio uma onda que os molhou e os deixou tontos, quase caíram na água. Se não fosse a mão segura dum banhista adulto e logo ali se teria dado uma desgraça.
O sermão da mãe veio, e passaram a ter mais medo do mar, que não era a poça do Agro…
No dia seguinte, a história foi outra. O banheiro Mouco chegou-se aos rapazes que brincavam na areia:
- É hora do banho! - E um em cada mão, levou-os para a água.
O mais velho fez um tal alarido que se ouviu em toda a praia. E nunca mais ele quis entrar no mar.
O pequeno, esse achou imensa piada ser mergulhado nas pequenas ondas que espumavam.
Enquanto isso, a mãe observava, divertida, o verdadeiro baptismo de mar dos seus filhotes.
E assim decorreu aquele ano de banhos na Póvoa de Varzim, na longínqua década de sessenta. No ano em que se comentou em cochicho que Salazar caíra da cadeira.

Manuel Guimarães , Odisseia da Memória (2005)

segunda-feira, julho 18, 2005

A Cidade Grande


Desceste na estação, atravessaste o átrio por entre rostos macilentos e ríspidos.
E ao fundo dos baixos degraus que desciam da estação, diante de ti, patenteou-se a longa e movimentada avenida.
Era um interminável fluir de táxis, autocarros, veículos de todas as marcas e feitios. E como tu, um formigueiro de passos apressados e firmes dispersava-se nas múltiplas encruzilhadas que dali se abriam.
Atravessaste a passadeira e entraste num snack de aspecto feio e abafado, atolado de clientes famintos. Exalava-se ali uma horrível amálgama de aromas. Chegaste-te com dificuldade ao balcão, pediste uma sanduíche e uma cerveja a um empregado calvo e gordo, de camisa branca, mas que o sujo dum dia de trabalho escurecia levemente. E veio a sanduíche envolta em plástico e a cerveja espumou no copo que ainda sabia a cloro. Instintivamente, embora tivesses tempo, tragaste, voraz, a sanduíche e a cerveja, empurrado pela pressa dos que te rodeavam. Depois, ficaste ali a ver o sôfrego apetite dos outros e a ouvir as estranhas modulações da tua língua, até habituares o ouvido. Pediste ainda um café.
- É uma bica? – disse o empregado.
- Sim, isso mesmo.
Ao saíres, foste abordado por dois sujeitos de aspecto duvidoso que te propunham negócio, um relógio, um revólver, qualquer coisa…
Mas, sem te intimidares, com a lição bem estudada, despachaste-os.
- Como conseguiste?
Bom, isso talvez tenha sido um pouco de sorte…Confessa! …Não reparaste que dois polícias assomavam na esquina, a uns vinte metros?
Entretanto, a tarde esgotava-se, e era possível ver, por detrás dos barracões que fechavam o Tejo, algumas cintilações de fogo dum sol que morria lá longe no oceano.
As luzes dos carros, dos candeeiros, as iluminações intermitentes de alguns anúncios davam uma cor irreal e feérica à cidade. O movimento, as luzes e os ruídos da cidade plasmavam-se numa mistura cinestésica estranha.
E foste seguindo avenida abaixo com o saco seguro pela alça ao ombro. Os teus passos eram largos e firmes. Tinhas apenas alguns minutos para fazeres essa distância.
Quando o esforço já te obrigava a abrandar, chegaste, enfim, ao Terreiro do Paço. Entraste na Estação fluvial e pediste bilhete para o Barreiro.
E foste atrás daquele cabisbaixo rebanho que regressava ao aconchego do lar na outra margem. Subiste a prancha, entraste no bojo da barcaça azul e ficaste junto à janela. E continuavam a entrar os passageiros, quase todos calados, uns de fatos puídos nas repartições públicas, outros com um ar mais informal, sem gravata, em casacas de ganga. Um ou outro casal trocava silêncios afectuosos, outros mais empolgados comentavam as peripécias do escritório ou da loja; outros, discretos, tocavam-se nas mãos e sorriam aguardando a satisfação do desejo, na privacidade daquele t2 que abre para a fábrica fumegante.
Olhaste a cidade que vestia as colinas, agora com colorações mais irreais, de cascata ou de presépio. E as fachadas brancas dos edifícios matizavam-se dos reflexos multicolores de néon.
E o cacilheiro balouçava docemente e o ronronar suave do motor e o borbulhar contido da água junto à ré faziam crescer aquela imensa dormência. E a pouco e pouco a imagem da cidade afundava-se mais nas margens do Tejo. E tu, reclinado, deixavas-te dormitar.
Chegaste, por fim, à outra margem. Lá longe, a neblina e os vapores sulfurosos, que as siderurgias lançavam, davam a este espaço a visão dantesca dum reino medonho.
Para trás ficava a cidade grande, branca e bela, voltada ao Tejo, agora vigiada por uma fria lua imensa e alva.
Manuel Guimarães, Odisseia da Memória (1982).

quinta-feira, julho 14, 2005

O que temia aconteceu


Outro ângulo do desatre.

O que temia acabou por acontecer. Somos de facto um povo estranho, delapidamos o que melhor temos: a nossa paisagem. A troco de quê? Digam-me? Que lucros, que negócios chorudos, que interesses podem sobrepor-se a um ambiente mais saudável?
Só por malvadez, penso eu.
Também nós temos os nossos terroristas. Mas estes são tão covardes que não reivindicam as suas façanhas.
Estão satisfeitos? Quem vos encobre, afinal?

As sequelas da estupidez humana

Há umas semanas atrás

quarta-feira, julho 13, 2005

Confidências duma estranha

Segunda-feira, Novembro de 1981, são sete da manhã.
Entro no comboio com destino a Lisboa. E vou sentar-me junto a uma janela. Como o frio apertava, enfiei-me todo no casacão verde.
Ouviu-se o silvo do homem da estação e a composição, num avanço bamboleado, pôs-se em marcha.
Colado o rosto à janela, via passar uma a uma as velhas casas amarelecidas do sol que avermelhado irrompia por detrás das construções.
Ao atravessarmos a velhinha ponte de ferro, a respiração foi mais pousada. Depois, chegamos à estação de Gaia. E entraram mais passageiros.
Pedindo licença, sentou-se a meu lado uma senhora, ainda de aspecto jovem e do género bonequinha.
Passados alguns minutos, meteu conversa:
- Então vai pra Lisboa?
- Sim, mas depois sigo mais para sul. Vou pra Faro.
Olhando para o meu saco de viagem e o aspecto de jovem quase imberbe, avançou:
- Vai pra tropa?
- Não, pra tropa não. Trabalho lá.
Tão novo e já trabalha?
- Tem de ser. Acabei o curso e tenho de trabalhar.
- Eu gostava de ir trabalhar. Mas não posso. O meu marido não me deixa.
A partir dali foi o desfiar de todo um rosário de amarguras, que uma relação aparentemente difícil ia acrescentando:
-O meu homem, não me dá um passo. Nem posso arranjar um emprego nem ter a minha independência.
- Mas ainda há homens assim!? – reagi.
- Se fosse só isso…
Conta, mulher, os teus sonhos desfeitos, a tua liberdade traída, o sufoco de seres apenas a arrumadinha guardiã do lar, que te acomodaste a uma vida pretensamente fácil. Que trocaste uma vida incerta pela carreira de esposa do promissor empresário. Depois, soltaste todas as tuas mágoas. Do arrefecer do amor, do crescer da repulsa, da tentação da fuga, da ânsia de encontrar alguém que te compreenda e te dê felicidade.
E ali, nela esverdeada carruagem de comboio, senti-me pela primeira vez confidente duma vida que girava em torno duma ilusão perdida.
As lágrimas, a raiva incontida, os insultos que o seu companheiro receberia, ouvia-os eu, ali, estupefacto, daquela mulher ainda jovem que se apressava em saltar duma ligação que a sufocava. E toda aquela viagem, longas cinco horas, foi um não acabar de um livro de queixas.
Quase no final da viagem, já o Tejo espelhava todo o rigor do azul da tarde e as chaminés das refinarias salpicavam de fumo branco o ar limpo, aquela mulher, na pose de quem interpreta o fado errado, pronunciou:
- Tenho de fugir, ele cerca-me, não me deixa viver. Até mandou alguém esperar-me à estação para que eu não me desviasse!
- Mas assim, não pode viver. Tem de fazer qualquer coisa. Porque não acaba com tudo duma vez?
- Estaria perdida. Ele nunca mais me deixaria viver a minha vida. Para onde fosse, ele havia de seguir no meu encalço.
Entretanto, a nossa composição entrou em Santa Apolónia. Olho para o exterior a examinar as pessoas e o espaço.
A jovem mulher espreitou também e de imediato reconheceu alguém na estação e desabafou:
- Eu vi logo que ele não confiava em mim. Veio o meu sogro vigiar-me.
- Pode ser apenas para ser simpático...- disse eu para a animar.
Mas ela parecia contrariada. Depois o comboio imobilizou-se e saímos.
Ela, ignorando-me totalmente, desceu e dirigiu-se a um cavalheiro que vestia gabardina de tom cinza e boné de fazenda e efusivamente se abraçaram e entabularam uma conversa amena.
Perplexo, contemplei a cena e passei em revista todas as lamentações ouvidas daquela mulher. E fiquei atónito.
Ao passar por eles, ela esboçou um breve e discreto sinal com o olhar, como a pedir-me silêncio, enquanto prosseguia uma conversa familiar com o cavalheiro que dizia ser seu sogro.
E eu segui pensativo para mais umas longas horas de viagem.
Manuel Guimarães (1982) Odisseia da Memória




sexta-feira, julho 08, 2005

A perda da inocência

- Tens aqui a cesta. Já sabes o que tens a fazer! – Falou a mãe de pé.
E o miúdo olhava com os olhos lisos de espanto e revolta, quase a deixar fugir uma lágrima.
- Sim….vou ao ribeiro. Mesmo até à água!?... – e a voz saía-lhe em murmúrio.
- Não custa nada, chegas-te perto, mas não caias, e depois é só voltares a cesta.
Dentro da cesta, seis cachorrinhos mexiam, ainda cegos, tacteando as canas à procura de conforto, do quente e macio úbere da mãe, que longe uivava presa à casota. Depois davam ganidos que calavam fundo no coração daquele menino.
O menino, de cesta na mão, atravessou devagar os campos, um a um até descer ao ribeiro orlado de velhos amieiros.
Junto à margem limpa e tosada do gado, sentou-se um pouco e recuperou o fôlego. Espreitou a corrente da água que interminável fluía entre pedras roladas, limos e lírios bravos. Olhou mais uma vez, no fundo da cesta aqueles seis cachorrinhos, dois negros e quatro brancos, ainda cegos.
Então, empurrado pela ordem recebida, despejou num gesto cego a cesta na corrente. E os seus olhos ficaram alagados de água e os soluços subiram no seu peito franzino em tropeções descompassados.
Largou depois a correr por entre os fenos que secavam ao sol como se atrás dele viesse a sombra pesada da culpa, na forma dos ganidos sussurrantes dos cachorrinhos.
Chegou ao velho coberto e foi acocorar-se num canto, atrás dos portões de ripas de castanho. Colocou a cabeça entre os bracinhos magros e chorou, chorou. Por fim, adormeceu sentado e encostado às tábuas quentes do portão.
No sonho do menino, os cachorrinhos voltavam-se para ele no fundo da cesta e abriam, por fim, os olhinhos tristes.

M. Guimarães, Odisseia da Memória.

Choro por ti

Choro por ti
a paz podre
caída em desgraça nas repartições
das secretarias de embaixadas
nos areópagos do mundo

Ferida nas palavras duras
como punhais que rasgam a carne
jovem dos crentes
que se imolam em ondas de ódio
servil cego desumano

Choro por ti
paz adiada
em tempos duros
em que o negro da morte
tolhe o passo
indefeso dos que se sonham livres

Choro por ti paz
vendida sob a mira certeira
das armas tintas de sangue vivo

Choro por ti
paz traída nos gestos diários
da nossa ostentação
da nossa arrogância

Choro por aqueles que perderam
o direito de escolher o caminho de amanhã
e que nunca mais
verão a dança dos pássaros
nem o brotar de nenúfares
das imundas lamas.
M.Guimarães (2005/07/07)

quinta-feira, julho 07, 2005

Teus passos



Sigo os teus passos
Ao longo da fita molhada da areia
Mas os teus passos seguem
mais distantes
mais fundos

E quando os meus
se aproximam
Uma vaga de espuma e sal
Apaga da areia o teu rasto

Então levanta-se
No fundo da praia
Um vento frio e áspero
que varreu todas as tuas marcas
e deixou apenas
uma traço ténue

Dentro de ti não passou o vento
mas veio a água e lavou
todas as imagens
dos meus passos
que atrás de ti
se perdiam
gastos.

M.Guimarães (2005)

terça-feira, julho 05, 2005

Mestre Caeiro


Neiva Molossi Passuello, Pastor e rebanho


Mestre
Empresta-me o teu cajado
E deixa-me
Espalhar as minhas ideias
Pela encosta verde

Mestre
Deixa-me seguir
Esse impulso de apenas poisar o olhar
Límpido e sereno
Na doçura
Do verde dos pastos
E nas multicolores pétalas
Iluminadas do sol

Mestre
Os chocalhos já soam
Na minha cabeça
E as ovelhinhas brancas
Saltitam divertidas
Por cima das complicadas
Problemáticas deste inferno
Na minha mente

Mestre
Com o teu chapéu de palha
Sentado à sombra de um freixo
Alinho as minhas ideias
Sobre o fundo verde
Enquanto o sussurro suave da brisa
Me refresca a fronte.

Mestre
Deixa-me refazer este mundo
E torná-lo simples
Como as cores simples do prado

Por que pisar as flores
Rasgar o bosque
Prender a água
Calar o pássaro
Se precisamos apenas
Encontrar o modo simples
De nos sentirmos
Flor bosque fonte e ave.
M.Guimarães(2005)

domingo, julho 03, 2005

Para Sophia


Passou ontem um ano após a morte de Sophia. Mas ela mantém-se entre nós com a força da sua palavra mágica. Em sua homenagem, apresenta-se agora um poema que há um ano se fez.


«Não se perdeu nada em mim» ( Sophia)




No fundo do azul do olhar
Esbraceja um mar que vive
Para além do fio cortante do horizonte

Permaneces
Em coral, nos búzios
Que ressoam a sempre viva melodia do mar

Sob os pinhais na curva das dunas
Na penugem dos fenos marinhos
Nas flores lilases dos ásperos cardos
Na luz branca e sincera da cal
Das casas baixas aninhadas nos regaços das dunas.

No voo do pássaro azul
E no cavalo verde que salta a sebe de maracujás
E no jardim ponteado de flores de trevo
E de seixos colhidos na orla da onda

No verbo exacto
Arrancado do caos humano
Num tempo inseguro e inexacto
Que urge emendar e reconstruir
Com a lição dos deuses
Abandonados

Mesmo depois
Da ausência
Viverás ainda no florir das violetas
No respirar ansioso das vagas
No raio de sol quente e justo
Que nos atravessa e nos limpa
A alma.

M.Guimarães (2004)

sábado, julho 02, 2005

Penso...


Há momentos na vida que é necessário parar. Deixar que a poeira assente. Depois, tendo as ideias no lugar, dizer o que a mente pensou, se alguma coisa tem a dizer.
É isso mesmo que tenho de fazer face às surpreendentes medidas que nos couberam, enquanto professores, no imperioso sacrifício do combate ao défice.
Se por um lado a lógica corporativa me impõe a revolta; por outro lado, sei que não sou ilha e que o meu bem pessoal não pode ser realizado à custa dos outros.
Assim sendo, espero que o governo não desperdice em «show off» os tostões que quer poupar, nem se esqueça na ânsia de retirar direitos adquiridos que a batalha mais importante a travar é a de criar condições para o crescimento económico.
E acerca disso, muito pouco tenho ouvido falar. Se as finanças são mais importantes do que a economia, pode começar já hoje mesmo a poupar o Primeiro Ministro: despeça o ministro da economia e baixará já nuns milhões de euros a despesa pública.
Afinal que grandes medidas têm sido tomadas para aumentar a competitividade das nossas empresas? Que sector económico foi restaurado? Que nova dinâmica se empreendeu para fugir ao grande marasmo que se abate sobre todos nós?
Coisas óbvias como o gasóleo profissional, energia a custos controlados para a indústria, crédito facilitado para a abertura de novas empresas...Disso ninguém fala, depois espantamo-nos com o êxito dos chineses e o dos nossos «hermanos» espanhóis...
Para gerir o pouco que se tem não é preciso ser economista, qualquer dona de casa eficiente do tempo da velha senhora fá-lo-ia sem pestanejar. Mas para criar riqueza, criar uma dinâmica ganhadora para isso é preciso muito mais do que contas afinadinhas (como quem diz, pelos vistos nem aí...).
Espero para ver. Pode ser que depois do quente verão e após uns mergulhos retemperadores apareça alguma ideia luminosa. Até lá, fico naquela pose que Auguste Rodin genialmente esculpiu: penso, medito, espero.

terça-feira, junho 28, 2005

Tempo para balanço

A inspiração anda pelas ruas da amargura. O trabalho é muito, e o corpo e a mente não aguentam tudo. Por isso, o melhor é parar e aguardar que a musa volte de férias e as energias se reforcem.

domingo, junho 26, 2005

A Roda


imagem colhida no Google


Eu tinha uma roda
Feita de pneu
Rodava e rodava
Na polida calçada

Eu tinha uma roda
Preta de breu
Girava na vida
E a vida saltava
E seguia veloz
Em correria danada

Até que um dia
A roda quebrou
Já não rodava
Ninguém a lançou

Na dureza da pedra
Fria da calçada
Ficou distante e muda
A criança que jamais sou.
M.Guimarães (2005)

quarta-feira, junho 22, 2005

A promessa verde dos frutos



Hoje importa a aprender a lição dos frutos
É preciso saber esperar
Aguardar a hora certa
O momento

Antes que a gula desfaça o gosto

Há tempo para florir
Para se fazer fruto
Ganhar sabor
para ganhar corpo
Tempo para amadurecer

E com prazer
Tempo de provar
o fruto.
M.Guimarães (2005)

domingo, junho 19, 2005

Dobadoira

Minha mãe tinha uma dobadoira
Feita de tábuas de pinho
Fê-la o meu padrinho.


Toda a noite
sob o luzir trémulo da candeia
enquanto o vento uivava sobre as telhas
a dobadoira
rodava
vezes sem conta
E o novelo do linho
E a trama da vida
se enovelavam juntos
Num rodopio sem fim.

- E meu home que não vem
que anda por esse caminho
E a noite se faz mais noite
E o pão que tarda em cozer
E os meninos que dormem.
Menos aquele anjinho
Que Deus o tenha.
-Mas rais parta ó fio!

E o peito de minha mãe
arfou mais fundo
e sua voz se embargou
E quedou-se a olhar pela janela
Na fundura da noite.

M. Guimarães (2005)

sábado, junho 18, 2005

Poema em construção

Para que se defina o poema
Três coisas são fundamentais:
Partir de ideias, sinais

misturados em cadência
Dando a impressão de sentir
na inteligência
aquilo que os demais
têm na vivência.

Por fim
Compostos em harmonia
E silêncio, sons e ritmos
Derramam no sentido
A melodia da alma.

M. Guimarães (2004)

Mais um recanto verde da colina que circunda a minha casa. Pena é que os sucessivos incêndios tenham enfraquecido os sobreiros.
manuel

quinta-feira, junho 16, 2005

A minha horta



Olho para a minha horta e recordo Cesário Verde.

«Nós dávamos, os dois, um giro pelo vale:
Várzeas, povoações, pegos, silêncios vastos!»
(Cesário Verde, De Tarde)

quarta-feira, junho 15, 2005

Recanto Verde



Um pequeno recanto verde, com a luz a interagir com o verde e a humidade que se exala do solo. Neste recanto a Terra ainda respira. Vou fazer o impossível para manter viva e verde esta nesga do meu pequeno mundo.

Convite







Venho muito respeitosamente
Com um olhar de soslaio e cândida perversão
Convidar a gentil dama a quem desejo
Como um galgo entontecido
Para uma virtual festa


Traga a camisa de seda
com aquele longo, longo decote.
Pode pôr esse perfume de violetas
colhidas junto às veredas
que serpenteiam a serra

Então
que seu peito arfe
e peça
um imenso beijo
e que lhe acaricie a nuca e
a pele macia do seu pescoço



Já no átrio
Saboreie
Os aromas frescos
Dos pêssegos
Aveludados.


Beba um pequeno gole
Desse adocicado
vinho rosé
e experimente o sabor
de colher um raio de sol
na varanda voltada ao poente.


Sentirá então no seu corpo
Um fio de água correndo
Que tornará sua sede
Mais funda
Mais quente.
M.Guimarães (2004)

terça-feira, junho 14, 2005

Minha aldeia é todo o mundo

A Galáxia de Marconi está a consolidar-se, definitivamente. Hoje, ao abrir esta página, vejo que em todos os continentes houve alguém que passou por aqui. A todos os que por tão longe cá acederam deixo-lhes um desafio: deixem uma palavra, um fio de conversa, uma ponte para fazer deste planeta a grande aldeia de todos.

segunda-feira, junho 13, 2005

Até amanhã, camarada



Até amanhã Camarada.
Um dia
Ainda havemos de chegar
À Estrada Grande
E ao olharmos para trás
veremos que todos virão
mais irmãos e mais livres.

Adeus Eugénio, até já



Adeus Eugénio
amigo do sol
e da água
dos beijos e de flores
dos barcos que balançam
da poesia feita de coisas simples
com as quais se compõe a vida
na sua vertente original
e única.

Estaremos contigo enquanto
a melodia única
e vária dos teus poemas
iluminar
a nossa humanidade.
Manuel Sousa

Atlântida




Olho em frente
e vejo a largueza do horizonte
e apronto o barco

Depois com a firmeza
de saber que há uma distância
longa que é preciso encurtar
digo à tripulação:

- Mãos à vela,
força no leme,
sorvei o vento
e temperados pelo sal
da espuma das ondas
e batidos por um sol brilhante e vivo
alcançareis as ilhas
de praias brancas
e águas límpidas.

Lá não se crestará a pele
nem se perderá
o intenso aroma
dos frutos.

Lá as estrelas
serão mais vivas
e o azul do céu mais fundo
e os corpos renascerão
em cada gesto de amor

E os lábios rosados
serão mais doces
e entoarão a melopeia
suave do gozo e do prazer
misturado com o bater
ritmado das ondas.

Por isso
eu, marinheiro,
subi a bordo
e traçada a rota
zarpei rumo
a ti.

M.Guimarães (2005)

sábado, junho 11, 2005

Tese sobre lenços de namorados


Lenço de namorados.

No dia três de Junho defendeu tese de doutoramento sobre a linguagem dos «lenços dos namorados» Adriano Basto, em Ourense (Galiza).
Esta forma peculiar de cultura popular merece-me a maior das simpatias porque expressa como poucas o sentir ingénuo e autêntico das nossas gentes do Minho.
Uma das quadras citadas :
Aqui tens meu coração
E a chabe pró abrir
Num tenho mais que te dar
Nem tu de me pedir.

sexta-feira, junho 10, 2005

Dia de Portugal - Variações sobre o hino




Pschiu!

Silêncio. Tu aí, endireita o peito, sacode o pó das calças. levanta a fronte. Enche o peito de ar.
Aí, tu, deixa a lamúria, levanta-te e escuta.

E soam os primeiros acordes. E já todos alinhados, deixando de lado as mesquinhas cargas que o dia a dia amontoa.
E soa a voz entusiasta: «heróis do mar, nobre povo»...
E diz o miúdo:
- E foram todos aqueles: o Vasco da Gama, o Bartolomeu... o Gil Eanes.
- Sim, e também o Manuel de Sepúlveda e sua esposa que morreu na praia dos Cafres, e o Fernão Veloso que contava histórias de cavaleiros nos reinos da Bretanha.
Esses todos. E até os que empenharam as barbas e que ameaçaram fechar os mares à soberba dos bravos turcos.
- Sim todos esses. E também os que naufragaram e que maldisseram a hora em que se despediram da praia do Restelo.
«Nação valente, livre e imortal»...
- E somos todos nós? não é?
-Sim e todos os que fizeram desta terra uma nação livre. Expulsaram os ditadores, deram ao povo o direito de traçar o seu destino.
E seguia o hino: «Contra os canhões, marchar»...
-Sim, é preciso marchar contra os canhões: a inércia, a cedência ao mais fácil, a espera absurda de um salvador, o egoísmo de cada um e de cada grupo. Mais do que os de fora, os canhões que trazemos por casa: os que fogem ao fisco, os que subornam, os que usam das ajudas do Estado indevidamente...
E soará o hino, em uníssono, convocando cada um para a grande façanha de fazer deste país um país a sério, que não se adie mais. Que desate de vez as peias que o limitam.
Se todos dermos o nosso melhor, ficaremos mais confortados e poderemos descansar e usar da beleza deste espaço paradisíaco que nos foi destinado.
Portugal, sempre!

quinta-feira, junho 09, 2005

O Porto e as festas populares


Ribeira (azulejo)

«Quem vem e atravessa o rio, junto à serra do Pilar» canta Rui Veloso. E com a melodia escorre amor e saudade do velho burgo pardacento.
Recordo o Porto, ainda era eu jovem, puxado numa serpenteante e estonteante corda humana, que descia voando desde Paranhos, pela Rua de S.Catarina, até desaguar na Ribeira. Foi um S. João inesquecível.
Depois, numa orgia de sons, luzes e aromas, nos jardins do Palácio Cristal era afogar a sede de muitos passos que palmilharam as ruas da cidade; resgatar as forças perdidas em tudo que a gula pedisse e a carteira deixasse.
E o Porto ficava nesse dia pequeno como a minha aldeia. Todos os poisos nos eram familiares e as caras que víamos pareciam as dos vizinhos da porta.
Então, para fazer a festa o essencial era a alegria do povo, de alma solta, coração a vibrar, e a música a brotar em tons foliões.
E a noite corria alucinada e cintilante do brilho contagiante da euforia. Foi então que eu me senti pela primeira vez portuense. E hei-de sê-lo enquanto estas doces redordações me afagarem a memória.

terça-feira, junho 07, 2005

O senhor tem tosse?



imagem retirada de Google (autor desconhecido)


Este episódio tem uma base real, deu-se com um cidadão contribuinte - o senhor Silva - , com todas as suas obrigações fiscais em dia e que é um adepto de um estado social que, porque cobra, deve retribuir com serviços de qualidade.

«São seis da manhã. A noite foi horrível, para o senhor Silva, não pregou olho. Era aquele peso imenso no peito, quase esmagado, a respiração difícil. Parecia que os batimentos cardíacos se lhe emaranhavam em ritmos desconexos. E então era aquela dor silenciosa mas pungente que tomava conta de todos os seus músculos. Era como se mãos invisíveis lhe apertassem o peito e o pescoço. Dificilmente um sopro de ar passava sem deixar uma marca dolorosa.
Não restava mais nada. Meio zonzo de sono e cansaço, tentou refrescar o rosto e lembrou-se do SAP aberto ali perto, no hospital da vila.
Vestiu-se e dirigiu-se às Urgências.
Fez a ficha.
Passada uma hora, na sala deserta, uma funcionária com a ficha na mão pronunciava o seu nome em voz alta.
- É na sala dois. O médico está à sua espera.
Então, apesar do mal-estar do corpo, sentiu um pouco de ânimo. Isto afinal funciona! - pensou.
- Vá sente-se. Diga lá o que se passa!
Então, o senhor Silva desfiou a sua história, a sua dor de um peito apertado, dos músculos doridos e presos, da imensa aflição que tomava conta de todo o seu corpo...
- E o senhor tem tido tosse?
- Não, senhor doutor. Não tenho tido.
- Custa-lhe respirar. É?
- Sim, mas não estou constipado, não tenho tosse, nem expectoração...
O médico pegou no estetoscópio e pediu para ele levantar a camisa. Auscultou-o muito apressadamente.
Depois sentenciou:
-Ah!...bom, bom, bom...O senhor tem tido tosse!
-Não, senhor doutor, há mais de dois meses que não tenho.
- Olhe, isto não é nada. Vai ver que isso passa.
Ele bebeu aquelas palavras com o desencanto de quem vê perder-se o último comboio. Ao contrário de outros momentos, a dor não diminuiu, cresceu, agora alimentada com a desconfiança e o desalento.
- Olhe, vou-lhe receitar um xarope. Tome-o duas vezes por dia até ficar bom! - e garatujou no papel timbrado o nome do fármaco.
Enquanto isso, o nosso doente olhou por baixo da mesa e viu que o médico estava com o pijama por baixo da bata e calçava uns chinelos de quarto.
Seguidamente, depois de um indisfarçável bocejo, o médico pronunciou:
- Pode ir. Você tem tosse, não tem?
Sem um exame, sem uma análise mais atenta do que se passava consigo, vencido, o senhor Silva saiu do consultório com o papel na mão, espantado, sem acreditar que trazia na mão, afinal, a receita para um xarope da tosse.
Duas horas depois, voltou às Urgências e foi encaminhado para o hospital distrital, onde lhe diagnosticaram uma inflamção no diafragma. »

Hoje, o senhor Silva tem na sua farmácia na casa de banho, a caixa já amarelecida do xarope da tosse como troféu duma noite de aflição e de um encontro imediato com a incompetência, em que, para além dos seus males, lhe inventaram uma tosse.
Manuel Sousa (Publicado no jornal Preto no Branco, 2005)

segunda-feira, junho 06, 2005

Viagem







Não hei-de ficar sentado
vendo arder
as últimas achas na fogueira
ainda me sobra um impulso
o último


Para trás
ficará todo este mundo do tamanho
da covardia
da rotina sedimentada.


Para ser mais
para vencer
esta imensa inércia
é preciso recomeçar
ouvir o bater do coração
deixá-lo partir
levando o alforge
carregado de esperança


Ser de novo
o aprendiz das coisas
simples e vivas.
M. Guimarães (2004)

domingo, junho 05, 2005

Cansaço

Professor também trabalha.
Por isso, como no final do ano aperta, durante alguns dias: testes, avaliações, muitas reuniões...
O blog terá de moderar o passo e aguardar acalmia no canal.

sexta-feira, junho 03, 2005

A Nódoa

Este texto foi postado como comentário na «república dos pêssegos»:

«O homem elegante chegou ao espelho e disse:
- Tenho uma nódoa no fato que me custou uma fortuna na barraca do Armani.Vou levá-lo a uma lavandaria para ver se a tiro.
- Sr. S...isso não sai. - disse a rcepcionista. - É uma nódoa de mentira, essas são as piores! Primeiro cresce o nariz...e depois fica a mancha. Nunca mais sai. Fica marcado para sempre.
Agora quando falar, todos pensarão:- talvez ele queira dizer o contrário!E o fulano, apesar de chique ficou enxovalhado .»

Espelho meu

Uma nova versão do famoso conto de fadas:

Está um primeiro ministro ao espelho e diz:
- Espelho meu, espelho meu, haverá alguém mais mentiroso do que eu?
O espelho arrepiou-se com a verdade daquelas palavras.

quarta-feira, junho 01, 2005

A morte anunciada da Constituição Europeia


foto colhida em blog metalicworld.

«Lhe deu Saturno Quebranto» (G.V.)


Depois do NÃO em dois dos estados fundadores da União Europeia,está tudo dito sobre este projecto de Constituição Europeia. Cá por mim, o melhor será concertar esforços, partir para qualquer coisa de mais consensual, antes que tudo isto se desfaça e tenhamos uma Federação Jugoslava em grande escala. Por isso, não contem comigo se insistirem num referendo inútil.
Tenho dito.

terça-feira, maio 31, 2005

Labirinto




A mãe trazia os dois filhos pela mão
chegou até à borda da seara
num instante deixou-os


Partiu depois
Desaparecendo na distância
E os pequenos ficaram ali

Uma brisa fagueira batia as espigas
e ondas corriam
a vastidão da messe

Num impulso repentino
Os pequenos irromperam em correria
por entre as espigas
Que amadureciam ao sol

E esculpiram na mancha verde-cinza
Um rasto labiríntico
Com o emaranhado dos passos
Pequenos e leves.

Enquanto no ar
Dois corvos atentos volteavam
E furtivamente
Mediam a dimensão
Da façanha
Dos novos ícaros.
M.Guimarães (2005)

segunda-feira, maio 30, 2005

Que te direi

Que o descampado
Ficou mais ermo
Que as violetas e as boninas
Se crestaram ao sol

Que um rio de águas turbulentas
Lavou a tua imagem doce
E ficaram apenas os calhaus
polidos
ossos despidos e frios

Que o teu olhar partiu
que nunca mais
haverá um gesto
afectuoso
Em teus dedos macios…
M.Guimarães (2003)

E agora?

Os Franceses disseram NÃO no referendo à consituição europeia. E agora? Será que o veículo avançará com uma roda presa?
Para já estou no NIM: referendar para quê? Primeiro arranjem um texto mais consensual, depois veremos.

Este não é o Benfica

Espero para ver o que dará este Benfica. Não é com certeza aquele que esperávamos ver.
A jogar deste modo, com as garras de águia cortadas, começo a pensar seriamente se o campeonato não lhe terá saído numa lotaria.
Parabéns ao Setúbal! Pela dignidade com que os seus jogadores e equipa técnica encararam este jogo. Como souberam ver que quando o Benfica tivesse pela frente jogadores que se aplicassem, a pose de vitória cairia .

domingo, maio 29, 2005

Banco de Jardim


Foto retirada da NET (www.pbase.com/ diasdosreis/imagens)



No banco do jardim
Aqueles lamentam o tempo

Vieram vergados pela vida
fingindo participar
neste banquete dos vivos.

Agora apanham destroços
Imagens gastas de efémeras glórias
Epopeias forjadas na memória.

Carregam o sobrolho
lastimam o rumo das coisas
de uma vida que veloz
lhes foge e os estranha.
M. Guimarães (1982)

quarta-feira, maio 25, 2005

A tempestade chegou!




Fujam! Vem aí o défice.

O mendigo da esquina

Na esquina da rua, aparece agora, dia sim dia não, o mendigo que pede esmola.
- Tenho tanta peninha dele!
Usa fato e gravata, cabelo grisalho, fatos de costureiros italianos, e pede com convicção a quem passa,ou a quem se arrasta, um pouquinho mais, pois o pouco que tem é muito pouco. É que entrou-lhe em casa um monstro horrível que lhe come toda a alegria e o deixa com o credo na boca e com as promessas a engasgá-lo.
O pedinte é boa estampa, e recorda-me um ceguinho que está na rua dos capelistas em Braga. Pode ser que os transeuntes apiedados de um sujeito tão bem apessoado se deixem embalar na lengalenga e descaiam com uns trocos.
- Olhe, não posso dar muito, mas deixo-lhe um conselho: veja lá se os afilhados e os sobrinhos não lhe entram em casa e não o deixam ainda pior.

terça-feira, maio 24, 2005

A Estrela





Já deram na torre da igreja as badaladas que anunciam o recolher das gentes. Vergados sobre uma fadiga secular todos deixam os campos e apontam ao lar, cada um no seu passo. O corpo pede descanso e não há como dar-lho.
Os casebres respiram um fumo leve e frugal como a ceia pobre que entretém o ventre.
Todos se recolheram, menos eles. Os pequenitos que cirandaram toda a tarde à volta da eira, brincando com os pezinhos nus sobre os grãos duros do milho, ainda não se cansaram de todo:
- Hoje tenho de a ver! É aquela, Nele. Olha como é linda! E brilha, acolá! Repara bem, naquele canto do céu! - e apontava o dedo esticado nas alturas.
- É uma linda estrela essa! - dizia o Zé.
- Está muito longe?
- Não sei. Disse-me o pai que chega-se lá depressa. Pela estrada de Santiago...
- Mas isso é muito longe, não é?
E deram mais umas corridas em redor da eira, com os braços abertos, como se fossem pássaros.
Então, a mãe chamou-os. E eles mais uma vez perscrutaram o céu a ver se viam a estrela brilhante.
- Lá está ela! Que marota, amanhã agarro-te. Mesmo que tenha de subir até ao alto da nogueira grande.
E os pequenos entraram no casarão que com o luar projectava no chão o rendilhado das telhas.
Depois, entorpecidos do sono, acomodaram-se no leito e o mais pequenino adormeceu, sonhando na estrela que no meio do céu cintilava.
M.Guimarães (2005), Odisseia da Memória.

Poema da varanda





Porque não vens até à minha varanda
colher na brisa do fim da tarde
um doce raio
de sol

E ouvir o trinado dos pássaros
e cheirar o perfume
das odoríficas rosas
que se abraçam à singeleza fria
da pedra


Porque não vens
já noite dentro juntar
as estrelas dispersas
e colocá-las
em coroa em volta do teu rosto
iluminado de amor e encanto

Por baixo da varanda lá estarei
aguardando a tua presença
então soltarei o canto
e louvarei a beleza do mundo
que se derramou
nos seres que o povoam.
M. Guimarães (2004)

Festa estragada

Eu devia estar rubro de euforia, dar pulos de satisfação. Mas para contrariar a onda de entusiasmo que onze longos anos incharam, não faltaram contributos. Ter de ganhar um título com o coração nas mãos e o travo amargo de mais uma vez as coisas se decidirem com um penálti milagroso. Ficou aquela sensação de ninguém querer o título. E, já agora, porque estão mesmo aí: - ó benfiquistas, fiquem lá com o campeonato. Que ninguém o quer.
Confesso, fiquei vermelho de vergonha.
Mas outros motivos me estragaram a festa. Não é que a retoma santanista não passou de falso alarme? E lá teremos novamente de ouvir até à exaustão aquele velho disco da tanga, da crise, do défice.
Se alguém souber de quem se lambuzou à custa da nossa contenção: aproveitem, espirrem, denunciem publicamente quem se serviu dos sacrifícios destes anos. Alguém deve ter-se aproveitado do esforço, não?
O problema lá continuará com as soluções «geniais»: aumentar impostos, cortar nos salários e no investimento público.
Questiono-me: então tanta massa cinzenta a debruçar-se sobre economia para termos as mesmas ideias que dão sempre o mesmo resultado: o fiasco da nossa economia?

sábado, maio 21, 2005

Círculo





Desenhei um círculo a giz
Na dureza do asfalto

E prendi-me nesse gesto
Girei, volteei e nunca mais
No círculo perfeito e branco
Se abriu um fissura que seja
Nem um passo único se aventurou
Para além da estreiteza do círculo

Não há chuva, nem rigor
que rasgue a dureza deste círculo
Que cerca em redor
E seca de vez
A verdura que se esgota
Na luz do olhar.
M. Guimarães (1998)

Lago






Chegaste ao lago
E foste colher nas margens uma flor
Mas não há um nome para essa flor.

Tiraste o chapéu e colocaste a flor
A flor transformou o chapéu,
O chapéu ganhou o cheiro e a cor
Ganhou a graça da flor.

Miraste o teu rosto
na face da água tranquila
acariciaste as madeixas soltas.
Depois atiraste uma pedra
no corpo do lago.

Logo ondas e ondas
concêntricas
se formaram
à volta da pedra
no meio do lago.

O rosto que bailava na água
tornou-se o rosto marcado
pelas ondas do tempo.

M. Guimarães (1982)

quinta-feira, maio 19, 2005

A campanha do NÃO

Já está em marcha a campanha pelo Não à Constituição Europeia. Por mim, ainda não formulei uma opinião. Necessito ler com atenção o documento, e só depois tomarei uma posição. Entretanto na blogosfera já está em funções um blog o Sítio do Não, mas será preferível e recomendável ler primeiro o texto <"http://www.cijdelors.pt/ ">.
Mas deixo aqui duas questões que me preocupam: será conciliável a existência da União Europeia sem uma constituição europeia? O NÃO implicará um regresso ao passado: o mosaico rígido de egoísmo nacionais?

quarta-feira, maio 18, 2005

Fumo

Há quase um ano, como a lembrar aos presumíveis ídolos que eles só o são depois da prova final, foi escrito este singelo poema. Agora julgo-o oportuno para encerrar esta caminhada do Sporting:



Douraram-te a fronte antes do combate
Teceram-te loas infindáveis
Coroaram-te de uma glória certa

Mas faltou-te o sonho mesquinho do esforço
O suor e a humildade de construíres
Aquilo que te dizes valer
no palco
Real e verde.

E ficaste do outro lado da história
agarrado a velhos mitos
Gastos como o holograma
De um sucesso que foi flor e nunca fruto.


Agora, estás aí
Voltado para a tua insignificância
Assobiando distraído e para o lado
Como se nada te fosse
Exigido

Mas não!
Essa foi a tua hora,
Esse foi o teu ensejo
De passares para além
da medíocre feira de vaidades que te enredam.

Por isso, dignamente
Sai de cena,
Poupa-nos dessas intermináveis lástimas
do destino português

Porque português é muito mais que ficar amarrado
A jactâncias e inúteis prosápias.

Até os comemos!



Hoje, visto-me de verde e vou puxar pela equipa dos largatos.
Força. Vamos a eles!!!

«Só eu sei porque fico em casa!» (comer umas francesinhas, regadas com um bom vinho, e um bolo feito pela minha filhota. Para finalizar, champanhe ( se calhar bem!!!).

A minha vida dava um livro - Parte III


St. Etienne.

(cont.)
Anos mais tarde vamos encontrar o Zé já casado, rodeado de filhos e entregue ao amanho das terras, na quinta do Redondo. No tempo, o pão era escasso e as bocas muitas e famintas.
O milho escondido e negociado às escuras, para que os homens do regedor não o pegassem para o Grémio.
E a epopeia do milho sai-lhe toda inteira, todos os passos e canseiras, todo o suor e tormentas. Nas lavras custosas, com vacas mansas a puxar os arados, nas regras em sobressaltos porque era preciso tratar das águas. E cada vez que o trilho junto ao ribeiro era calcado até à levada, era mais uma promessa de espigas que brotava da terra.
E os olhos brilham-lhe quando nos conta aquela noite com a eira cheia de carros de milho. As nuvens a ameaçarem o trabalho do dia. Mas logo se compôs ali mesmo um rancho do povo do lugar que, sob a batuta enérgica do Zé, depressa despiu das palhas as lautas espigas. No fim, apesar do cansaço, levados pelo entusiasmo e excitados pelo bagaço, novas e velhas gastaram até aos limites as forças no corropio do vira.
Nas tardes de domingo, de chapéu de feltro caído para a fronte, de vara na mão, lá partia o Zé na ronda habitual, porque outra paixão o cegava - o gado. Conhecia-o como o mecânico conhece os motores: as suas manhas, as suas doenças e também as curas caseiras; sabia-lhes o peso, a idade e a força. Quando fala nos touros e nas vacas os seus olhos cintilam: E gaba-se: «dei gado para as melhores quintas de Taíde, Simães, Garfe, Vilela...». Não havia gado das redondezas que ele não conhecesse. De lavrador em lavrador, de caseiro em caseiro, visitava-os a todos, na mira de um negócio, de um pequeno lucro.
Mas a estreiteza deste pequeno mundo não o satisfazia. Embora levasse já mais de um carro de anos, também ele sentiu a tentação da França. E foi dos primeiros a abalar, deixando a quinta entregue aos cuidados da Zirinha, sua mulher, e dos filhos ainda pequenos.
E conta-nos: «Quando chegámos à vila de Saint Étienne, estrangeiros éramos meia dúzia e a França ainda era dos Franceses». Depois vieram os «algerianos» e os marroquinos e acabou o sossego. O contacto com os franceses foi sempre amistoso e receptivo.
As viagens longas e cansativas trazem-lhe recordações de múltiplas peripécias. Da bagagem que se perdeu, lastimando pelas lembranças da terra que levava para amenizar a saudade, do comboio que apanhou trocado e em que perdeu mais dois dias na viagem.
E destaca especialmente aquela viagem de automóvel, interrompida por um brutal acidente, que o deixou às portas da morte. E lembra o tratamento que lhe deram no hospital em Avignon e reconhece que o povo francês era um povo humano, acolhedor e solidário.
E foi aquele episódio que quase o traíra que lhe deu a possibilidade de se estabelecer de vez em Portugal. O seguro do acidente e algumas poupanças permitiram-lhe comprar a quinta do Bombo, onde, já de depois de totalmente restabelecido, foi durante muitos anos um dos lavradores mais conceituados no amanho da terra, na criação de gado e na cultura do vinho da sua aldeia. O seu apego ao trabalho passou para além dos oitenta, numa energia que parecia não acabar.
Hoje, o cansaço e os anos quebraram o seu vigor, mas não o seu verbo fácil e a memória viva. Por isso, quando alguém o interpela, lá desfia numa toada serena a sua repleta vida. E remata, por fim, « a minha vida dava um livro!».

terça-feira, maio 17, 2005

Uma vida que dava um livro - PARTE II


AVG - www.CulturaGalega.org/

(Cont.)
Já durante a segunda guerra, a aventura do volfrâmio é um não acabar de histórias.
Zé da Lopes fala-nos das saídas de madrugada, atravessando a serra da Cabreira, ainda enfestada de lobos. Dos encontros fortuitos com a sorte, no saco de minério que se vendia na calada da noite, em compradores de Ruivães e de Salto. Das escaramuças com os guardas da mina para conseguir passar um pouco do negro minério. Dos guardas que rondavam a caserna e que nada encontravam, porque o «volfro» já estava a salvo e a caminho da guerra. Das pilhérias do encarregado que lhe exigia um saco dele, porque era preciso animar o seu S. João em Braga. Da camioneta do Marinho que os deixava para trás, porque os fiscais eram "uns gatunos". Das jornadas na serra Amarela e na serra Galega, por caminhos ínvios e cheios de sobressaltos. Das dormidas em cabanas dos pastores da vezeira, do ataque de piolhos e dos chatos. Do assalto à camioneta por uma quadrilha de má catadura: «Tudo quieto, que ninguém se aleija. Ó motorista, passa para cá essa mala». E lá ía uma pequena fotuna!
Diz-nos que pelas encostas da serra a caminho da Borralha era a romaria matinal dos pobres que rumavam à serra para encontrar uma saída para a miséria: no emprego da mina, no comércio dos poucos víveres que transportavam às costas, desde as fraldas da serra da Cabreira e até de freguesias de Fafe.
Mas também conta-nos das fanfarrodas dos que se sentiam repentinamente com os bolsos cheios, que fumavam o tabaco enrolado em notas de vinte. E das doenças provocadas pelo gás e pelo «pó» que acabaria por lhe levar um irmão, que enterrou em Salto.
Falou-nos do seu casamento e dos trabalhos por que passou para comprar o arroz - a cento e vinte mil reis o quilo! - o que seria hoje uma pequena fortuna!
Depois, fechada a mina, foi a construção do canal das Lourosas, pequena hidroeléctrica do rio Ave. E relatou-nos o episódio trágico do colega que perdeu o irmão, afogado na presa, e na sua insistência para que lha despejassem para recuperar o corpo. E da dureza do patrão que o recusou.
M. Sousa (cont.)

«Saída da mina» AVG - www.culturagallega.org/

domingo, maio 15, 2005

TChim...Tchim!



Brindemos:
à vitória do SLB e aos que me alegraram com a sua visita.
Obrigado.

O Golo


Site oficial do SLB

Ricardo ajuda e Luisão marca. Voilá.

Glorioso




Basta apenas mais um pontinho e o enguiço de onze anos fica para trás.
Agora, não há dúvidas: o pior já passou.

quinta-feira, maio 12, 2005

1000

Um número é apenas um número. Mas este tem um certo sabor. Mil vezes foram aquelas que este ainda juvenil blog foi acedido. A todos que cá vieram deixo o meu obrigado e o convite para que voltem. Pode ser que entretanto coisas novas surjam e a minha inépcia em lidar com o programa seja minorada. Vou fazer o possível para melhorar.
E, não é pedir muito, deixem as vossas críticas e sugestões.
Agradeço.

quarta-feira, maio 11, 2005

UMA VIDA QUE DAVA UM LIVRO


Porto antigo , gravura colhida no GOOGLE.


Há aqui uns anos escrevi um texto que reflecte a admiração que nutro por uma pessoa muito especial – o meu sogro.

Parte 1

«Nascido há oitenta e nove anos, Zé da Lopes é um homem vivido que carrega consigo um rosário cheio de histórias.
Cedo viu o pai regressar do Brasil e falecer vítima das febres tão comuns do princípio do século vinte. E cedo, muito cedo saiu de casa para ajudar a mãe, servindo em lavradores da terra e da freguesia vizinha de Garfe, onde se fez rapazote.
Conta-nos muitas vezes as idas à feira de Guimarães, conduzindo cabeças de gado para venda. Falou-nos da bucha rápida para enganar a fome, das trapaças para enganar os fiscais da câmara e não pagar o bilhete da feira, porque o dinheiro andava escasso…
Contou-nos a sua curta passagem pelo Porto, pelo velho burgo, do início do século. O Porto que ainda acordava ao som do chiar dos carros de bois, que faziam toda a sorte de fretes. Materiais para as obras, transporte de pipas de vinho para os tascos, porque no Porto bebia-se bem! Do despejar das imundícies em barricas para cevar as hortas. O saneamento público era excepção e um luxo.
Contou-nos dos barcos que atracavam à Ribeira, e das descargas braçais dos cargueiros, dos musculosos estivadores que ganhavam muito! – mas que carregavam sacos com mais de seis arrobas. Do patrão, amigo de seu amigo, mas que gastava até ao último tostão no antro do jogo, e que lhe pedia que o encobrisse junto da sua santa patroa. Da fome que não passou, porque o Porto era terra farta.
Da sua fugaz passagem pela tropa, servindo o seu capitão, transportando pedras num braçado para que ele as atirasse contra os soldados, quando não cumprissem as suas ordens. Das caminhadas forçadas pela encosta da Falperra e do cheiro a bacalhau nos tanques da Santa Marta, para os turistas de fatiota.» (continua)
Manuel Sousa, in Ecos de de N.ª S.ª de Porto d'Ave

terça-feira, maio 10, 2005

Apelo


Promontório de Sagres, by IPPAR




Chegados ao fim da estrada
Estávamos cobertos pela poeira e pela fadiga
Não havia nada em volta
senão o latir de um grupo de cães
Altivos e ameaçadores

Nós, de mão dada,
Cruzamos olhares e pensamos
- Não são estes os nossos medos...

Seguimos ainda um pouco mais,
adiante era a falésia que se despenhava no tempo

Temos de saltar, temos de ir mais além!.
Aaaa...lém!


Que importa que este chão sólido e perfeito se dissipe
Que importa que tudo se torne névoa
barulho de mar e força cega do abismo


Vamos.
O que depois nos aguarda é mais do que uma certeza
é a alternativa a ficar duros e inertes
como as rochas que seguram esta falésia


Vamos,
só assim poderemos
vencer a distância
que teima em dividir-nos a meio.

Vamos,
mesmo que nossos corpos
Se estranhem,
Uma força imensa nos une
E nos impele a avançar.

M. Guimarães

segunda-feira, maio 09, 2005

Há 60 anos acabava assim o horror da 2.ª Guerra na Europa




ACTO SOLENE


Foi apenas um acto breve

Mas para além do gesto burocrático
que punha um nome no fim da catrástrofe
Ecoava estridente
a voz ensanguentada
o corpo mutilado
o rosto desfigurado
da Humanidade


E foram sem número
os que ficaram para trás
imolados à fúria cega
de paixões absurdas e malditas.

-Que sentiste velho soldado,
quando diante da folha branca
de caneta em riste
tiveste de irromper
contra esse teu maior inimigo
que te espreitava como um remorso?

Nesse momento
não tiveste o toque do clarim
nem o sabre do general
nem o estandarte maldito
a empurrar-te para a frente

Nem os hinos entoados pelas ruas
empolgando o povo para
a épica horrenda.

Nesse dia estavas apenas tu,
carregando com o crime dum povo humilhado
e dum deus caído em desgraça.

M. Guimarães (2005)

sábado, maio 07, 2005

Confessa


Hoje não estás em dia de fazer nada
confessa

apenas te resta essa simples opção
de parar
ficar sonolento
e enquanto um torpor suave te toma os braços
e te faz esculpir com grafemas
coisas inócuas
ideias avulsas
de nadas que vão e vêm no teu pensamento

Sentes o arfar
de quem se prepara para um último esforço
mas logo a seguir
ao voltar da linha
a imensa treva se derrama

O que ficou deste impulso
deste acto obtuso
de busca e expressão

nada

apenas um aceno para passar
de um desejo
a uma forma pálida
de dizer
quase nada.

M. Guimarães (2005)

sexta-feira, maio 06, 2005

Solidariedade porto-galaica

Porque ainda se ouve a multissecular voz dos eidos e povos, porque um sangue comum nos corre nas veias e uma voz reconhecida nos soa familair, por tudo isso importa a solidariedade com Galiza. Nesse sentido, tornar público e denunciar qualquer tentame de repressão castelhanista além Minho é um obrigação.

«Faro de Vigo exclue a língua galega
Redacçom - 05-05-2005
O diário decano da imprensa publicada na Galiza sostém umha aposta firme polo emprego da língua
espanhola e a folclorizaçom e minimizaçom do espaço dedicado ao galego. Editado por primeira vez em
1853, Faro de Vigo exprimia os interesses dumha emergente burguesia localizada na comarca de Vigo e
afirmava-se já na altura na ideia de “coadyuvar a los interesses de Galicia”. Segundo diário mais lido na
Galiza e muito extendido nas comarcas da provincia de Ponte Vedra, onde reune o grosso dos 287.000
leitoras e leitores diários que lhe atribue a Encuesta General de Medios (EGM) em Março de 2005, Faro de
Vigo é no entanto um diário radicalmente reácio ao galego, língua de uso habitual dum grande número das
pessoas que o mercam e som leitoras habituais.Assim, a língua nacional aparece relegada a algumha
ciscada Carta al Director e às páginas de Cultura do jornal, enquanto a prática totalidade do diário é couto
exclusivo do espanhol. O jornal que em 1986 passava a fazer parte do grupo de comunicaçom Editorial
Prensa Ibérica, integrado por 14 cabeçalhos jornalísticos, teima aliás na prática de traduzir para o
castelhano qualquer entrevista realizada em galego, desrespeitando deste modo mesmo os mais
elementares e formais direitos lingüísticos das pessoas galego-falantes, apesar de declarar-se
formalmente favorável ao “máximo compromisso com o território no que se publica”.Nova ediçom digital em espanhol1999 era o ano no que o diário viguês dava o salto a Internet. Sete anos depois, Faro de Vigo anova o seu sítio web, mas as mudanças apenas afectam a aspectos técnicos de navegaçom e à possibilidade anunciada de que o diário de Prensa Ibérica ofereza informaçom actualizada no próprio dia.
A língua do País continua a ser marginada e relegada a usos litúrgicos e secundários. Assinalar como evidência do afirmado que, apesar de o diário viguês aderir à retórica lingüicida do bilingüísmo harmónico, o galego nom existe sequer como “opçom”, mas é suprimido também agora na Internet.Os interesses económicos e políticos que se movem detrás do jornal viguês definem sem dúvida algumha a sua escolha identitária. Com conhecidas prumas representativas do antinacionalismo na sua nómina jornalística, como Xavier Vence, Alberto Otero, Fernando Gallego ou Javier Sánchez de Dios, Faro de Vigo é o porta-voz oficioso do Grupo PSA Citröen ao que se vincula economicamente e dos sectores socialmente mais regressivos da cidade de Vigo e das comarcas de Ponte Vedra, O Morraço, O Deça, Taveirós, Caldas, O Condado ou A Paradanta. Aliás, o diário potencializa a sua presença e influência sociais através do Club Faro de Vigo, um foro de opiniom formalmente plural, mas vinculado a importantes grupos económicos, políticos e mediáticos, desde onde o jornal decano na Galiza promove líderes de opiniom, impulsiona umha defesa encerrada da ideologia das grandes obras públicas como prova de todo progresso, defende o actual quadro constitucional e silencia nas suas páginas quaisquer vozes dissidentes e opostas à democracia e o progresso do Pensamento Único.»

Pequena provocação


«A minha pátria é a língua portuguesa» - dizia o poeta, agora Paulo Portas tem uma versão mais brejeira desse aforismo. Adivinhem qual será?

quinta-feira, maio 05, 2005

Os nativos, o colono e o missionário


No blog «companhia de Moçambique», há fotos que são documentos extraordinários da presença dos portugueses (colonos e missionários). Talvez depois do calor da revolta se venha a fazer um balanço mais justo.

Para a Anabela a minha ex-aluna preferida

Lembrando o seu aniversário:




Aniversário





Olhas-te ao espelho
E reconheces que essas carnes
Descaem
o vigor dos anos falece


Sentes por dentro essa tensão
De vida que não espera que exige
Um lance novo
A ousadia de um imprevisto passo


Mas logo aí no farto penteado
Branqueja uma cã

Saltam ao pensamento os filhos
Os projectos as decepções
Afunda-se na tua memória
o rosto
Mimado dos filhos
dos filhos...

M. Guimarães

quarta-feira, maio 04, 2005


Rio Ave, foto de Silvino Jorge Rodrigues (Drácula)

Pequenas estórias

-Salta, morcão, salta.
E todos os garotos olhavam tímidos. Os truces colados às pernas magras, tremelicando da água fria, mas o Chico, autoritário, dava ordens ao Libírio :
- Ou saltas ou empurro-te. Lingrinhas!
E outra vez , mesmo do meio da ponte, o Chico voltou a saltar. Os olhos dos pequenos seguiram-no até à superfície da água lisa e escura.
Chap!
- Ali foi que desapareceu o Zé Custódio em dia de S. Bento. Num foi, ó Gusto?
- E nunca mais o viram, num é? - dizia outro.
E o tempo passava e a cabeça do Chico não aparecia na superfície da água.
- Caraigo! Ele num vem!
- Olha que a moira encantada levou-o cum ela!
- Que moira? O teu pai num te disse, morcão?! Aquela que levou o penedo do monte de Santa Maria até à Citânia.
-Ah, essa? ...
Entretanto algumas bolhas de ar chegaram à superfície. E o Chico apareceu. O herói estava ali outra vez e pronto a desafiar os cagarolas para o salto fatal.
- Quem é o próximo? Ou saltandes ou parto-vos todos cum porrada!
Mas quando o Chico se apressava a subir a ladeira até à estrada, na ponte, já todos, como um bando de pardelhos assustados se egueiraram por entre os milheirais.
M. Guimarães

segunda-feira, maio 02, 2005

Camões na ponta da língua

Não resisti à tentação de transcrever uma passagem da revista Magazine Domingo, do Correio da Manhã. Isto porque, sendo eu professor de Língua Potuguesa debato-me todos os dias com a resistência dos meus alunos à leitura. Por isso, aos bons exemplos devo dar-lhes a ênfase necessária.


«Lilian partiu há quatro anos da Moldávia para Portugal sem saber uma única palavra de português. Hoje, é o melhor aluno da turma.

Na sala 13 da Escola EB.2.3. Ferreira de Castro, em Mem Martins, a professora Guiomar Palmeiro prepara o exame final de Português. Na aula de hoje, a turma do 9º F revê alguns cantos d’Os Lusíadas. “Quem é que quer ler?”, pergunta a páginas tantas. Entre os braços que rapidamente rumam ao céu, e se misturam com as estrelas, planetas e cometas que decoram as paredes, avista-se o de uma figura esguia. Responde pelo nome de Lilian, tem 15 anos e é moldavo.Lilian Sandu prontifica-se a ler duas estrofes do Plano da História de Portugal. Sentado junto a uma das janelas, o aluno declama-as como um verdadeiro poeta. Parece que devora as palavras, sem nunca tropeçar nas vogais muito menos nas consoantes. A sua pronúncia é perfeita. Mas não é só a forma como recita o diálogo de Vasco da Gama com o Rei de Meireles que chama a atenção. O jovem destaca-se pela participação activa que demonstra ao longo da hora e meia de aula. Ora responde às questões colocadas pela professora, ora esclarece as dúvidas que traz de casa devidamente anotadas no caderno escolar. Não admira que esteja entre os melhores alunos da escola. Admira sim o facto de Lilian ser o melhor aluno a português quando é o único que não tem sangue lusitano. »
Sérgio Lemos, in Magazine Domingo , Correio da Manhã,2005/05/01

domingo, maio 01, 2005


mãe
Posted by Hello

Mãe

Neste dia de ternura imensa, porque não encontro as palavras certas e a emoção é muito mais forte do que as palavras, recorro ao português sem mestre, o grande Almada Negreiros:


Mãe Vem Ouvir

Mãe!
Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei!
Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue verdadeiro, encarnado!

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens!
Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.

Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me ao teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.

Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero Ter um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!

Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!

A INVENÇÃO DO DIA CLARO, LÍRICAS PORTUGUESAS, PORTUGÁLIA EDITORA, LISBOA, P. 95

Veni, vidi, vici



«...with Jose Mourinho dancing for joy and Drogba even seizing an inflatable Premiership trophy from the crowd in expected triumph.» (http://www.dailymail.co.uk/)

Tal como César, Mourinho foi, viu e venceu, Assim,l como previa Camões, também ele faz parte daqueles que «se vão da lei da morte libertando».